Barcelona de Tàpies
Nestes dias, em Barcelona, o reencontro com os meus artistas de sempre, sobretudo Picasso e Tàpies. A cidade com o charme das grandes cidades europeias, associada ao salero que Espanha empresta aos seus lugares e à forma como ali se afirma a intimidade individual naquilo que é o espaço público. As varandas, as janelas, os pormenores da iluminação pública, entre outros, estão cheios de sublinhados íntimos que fazem da cidade uma cidade assinada com o espírito do seu povo. Uma cidade assinada, como um artista assina um quadro. O meu sonho de cidade é assim: que as pessoas se demorem a comunicar com aquilo que é seu, acrescentando à cultura do outro. Por isso, me sensibilizam os pormenores, por serem pequenas notas de vida de quem por ali passou. Uma janela não é só uma janela, uma janela pode ser uma longa história, uma longa lição, ou um breve suspiro, uma breve alegria, mas nunca é só uma janela.
Escrevi uma série de textos poéticos, entre os dias 12 e 14 de Junho de 2010, após uma visita à Fundació Antoni Tàpies, ao todo 12, todos dedicados à obra deste gigante da arte mundial. A primeira vez que visitei uma exposição de Tàpies ocorreu nos inícios dos anos 90, na Fundação Calouste Gulbenkian. Denominava-se «A celebração do Mel». Na altura, já tinha lido um número significativo de entrevistas e ensaios de sua autoria e revia-me entusiasticamente na forma como caracterizava a sua obra, bem como na definição que avançava acerca do papel da Arte e dos seus criadores no mundo contemporâneo.
Na manhã de 12 de Junho de 2010, com a minha companheira de há mais de vinte anos, sentei-me em frente da obra do Artista e tive uma das mais emocionantes e genuínas experiências sobre a criação e a consequência da Arte na vida do outro. Experimentei esse papel de outro com uma intensidade e uma elevação tais que não consegui conter as lágrimas.
Desta vinda a Barcelona, fica o registo desse encontro. Uma espécie de para sempre que decidi entregar a esses momentos. Uma espécie contagiante de inquietude que só o espanto é capaz de abrir à sempre incompleta travessia dos significados, ou do estarmos vivos, muito aquém daquilo que poderíamos ser ou interpretar sobre nós mesmos quando estamos com os demais e tão pouco sabemos dos seus abismos e das suas revelações face à imparável e transtornante matéria do mundo.
Fica para os leitores da Máquina Royal, um dos 12 textos que escrevi, este inspirado na obra
«ARMARI» - 1973
Estamos presos nos múltiplos corpos que já tivemos dentro de todas as peças de vestuário que usámos.
É uma obsessão guardar as conversas, os gestos, o toque, as carícias que levaram essas roupas.
É uma obsessão tão grande e tão dolorosa como a de não querer perder um só instante.
Há um ser que nos enterra todos os dias. É um coveiro que trazemos a cada segundo, o coveiro que nos escava o tempo e provoca a alma.
Um armário é um jazigo, mas um jazigo onde desenterramos o que mais desejamos: a aparência de morte e de amor que tem tudo o que não alcançamos mais.



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