O espanto e a ética

Pintura de Marc Chagall

Chagall. Quantas vezes um quadro pôde ser um pedaço de exílio, um extracto de fuga, um abrigo das coisas que queremos distantes pelas razões menos óbvias, menos perceptíveis, mas mais claras ao coração. Quantas vezes descansei, e ainda descanso, do cansaço e do suor que as utopias sempre trazem, nesses quadros, nessas formas tão íntimas de recolhimento do mundo? A Arte é uma bênção, uma bênção comparável ao sentido teológico das bênçãos. Porque a Arte confronta as nossas aspirações perante a existência com a língua íntima com que desenvolvemos a nossa própria vida. Uma bênção também é muito essa participação divina que dialoga com as nossas aspirações humanas e deixa fluir nesse diálogo o pacto entre Deus e o Homem.

Chagall é um mestre dessa forma de devolver a pintura ao olhar dos outros, esses tantos autores de outra tantas leituras, quase tão importantes quanto as do executante da obra. Muitas vezes, passa desapercebida a ideia de que a Arte, seja ela qual for, só é importante porque é interpretada e sentida por alguém. Se não houver esta comunicação não há Arte, não há sequer o produto artístico, há qualquer coisa de incompleto que não chegou ao fim do seu trajecto. Um quadro é um quadro, mais a intenção de quem o produziu e a interpretação de quem o olhou, juntando-lhe pensamento e essa nova coisa, essa nova energia, que perpétua e justifica a obra.

As personagens de Chagall são inúmeras vezes os meus estados de alma. Uma partida para o que poderia ser temporariamente perfeito. Há uma grande verdade que tenho perseguido: não há nada mais belo do que o espanto sem a perda de ética. O espanto embarcado no fascínio fácil e no abandono dos pilares da individualidade é algo frequente e que se tem reflectido no aligeiramento dos povos. Mas o espanto, mantendo a ética, é algo de extraordinário. É o poder fruir do que é belo e do que é novo, confrontando, questionando e construindo algo sob o antigo, engrandecendo-o. O progresso em que acredito faz-se desta massa, daí nunca saber responder à recorrente questão se sou liberal ou conservador.

As personagens de Chagall que pairam sobre o universo e têm sempre um grande contraste com as coisas desse mesmo universo, partindo delas e recriando-as, soltando-as na liberdade que o ser guarda em si mesmo sem nunca se perder.

O que me faz falta, seja gente, lugares, objectos ou o que seja, parte sempre do mundo, sem nunca ficar escravo deste. As pessoas que transformo no coração, para serem minhas para sempre, as coisas que levo vida adiante, os objectos que transporto e que são o que são mais a memória que deles guardo, são fruto do espanto e da ética que me sustenta.

Preocupa-me que as pessoas sejam extemporaneamente os bodes que tocam violino nos quadros de Chagall, sem nunca terem escutado um violino ou ter visto um bode. Quero dizer que me preocupa que as pessoas se disponibilizem, cobarde e facilmente, para o que é novo e é espantoso, sem desse gesto nada saberem. Isso sim, desgraça as civilizações e torna as sociedades escravas de um marketing que nada tem de sustentado por serem só os que dominam que disso tiram real proveito.

Mas quando regresso aos quadros de Chagall regresso ao que mais quero na vida, regresso ao que me ensinaram e ao que aprendi por mim a desejar e a ser objecto de luta. As personagens de Chagall são um estímulo e uma casa para o que tem de ser novo nesta vida, pela forma como nos desafiam na sua poética infinita, como infinita também é a poética que têm as nossas mais terrenas alegrias, o nosso mais justificado choro, o nosso mais sincero gesto para que nunca morramos, para que nada possamos saber da nossa própria morte, que é o mesmo que admitir que alguma vez estaríamos capazes de cair no esquecimento daqueles onde eficaz e maravilhosamente semeamos o amor. Cristo que o diga, com o seu exemplo.

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