Poemas da Bielorrússia
1
Ainda que sobre o corpo anoiteçam
todas as margens de silêncio
e gritem dentro do sangue
as histórias que não renunciámos,
poderei adormecer sobre a tua voz
e plantar no silêncio uma flor
e daí fazer seguir todas as revoluções.
2
Ontem atravessei a tua voz
como se fosse uma estrada
e olhei até ao fundo,
medindo até onde poderia ecoar
o nosso mais desregrado amor.
3
Estou muito vazio.
A praça anoiteceu-me sobre os ombros.
Só uma ideia salvaria o cansaço.
A ideia de que, se viesses, espalharíamos
o que somos como uma peste
e só sobreviveria o que os outros
nunca sabem, às vezes o próprio amor.
4
E se fosses uma ave no parque?
Ou uma ave no coração da Humanidade?
Que sobraria da História?
Quem sobraria no parque que fosse despojado
de amor ou firmamento?
5
Voa sobre a cidade e descobre-me
no olhar mais distraído com o mundo.
Pousa nesse olhar
e gasta o resto da vida bordando aí o amor
que sempre provém da esperança.
6
Queria dar-te um corpo que fosse um país
ou uma manhã onde se acordasse
não com a luz do dia, mas
com o lume das coisas inacabadas.
7
Ouvem-se ao longe os soldados,
mas não importa. O orgulho é uma ave
que guardámos para desenhar as margens
da intimidade,
sem avenidas ou palácios
mas com a língua que as aves usam
quando não enunciam o céu que atravessam,
mas o seu infinito.
Minsk, 6 de Maio de 2009


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