Uma história de amor.


Havíamos de ter dado conta que o tempo não era muito. Talvez até fosse inteligente perceber que, de facto, por mais literatura que nos acompanhe, acabaremos sempre por ser mortais e, por consequência, estarmos expostos a desnecessárias despedidas.
Quando olhares em volta, hás-de ver qualquer coisa que seja a sombra ou o perfume de todos os teus sentidos. Hás-de guardar aí uma história ou uma vida e julgar que outras tantas ainda poderão vir. Mas o medo é uma espécie de planta da infância e o teu corpo é um muro onde se agarram antiquíssimos musgos, onde se preparam solidões e desgastes, onde inúmera gente já foi capaz de encostar lamentos, promessas, alegrias ou fugas.
E quando começares a fugir hás-de misturar-te com o vento e perceber que afinal a tua pertença não é apenas ao teu corpo e à carne onde se depositam desolações e esperanças.
Quando te misturares com o vento terás um corpo que será uma paisagem a valsar com a loucura com que valsam as macieiras e os limoeiros que te abriram os desejos e te contaram como pôde o mundo escancarar-se ao amor.
E ser o vento é o mesmo que ser árvore ou pedra. Como viver é o mesmo que ser o toque que coleccionamos e sobre o qual vamos morrendo a pouco e pouco no que é alheio mas que nos garante uma certa forma de continuidade.
A nossa metafísica é isso no começo: um toque, um ficar no outro com a naturalidade das plantas e a poética dos muros.
Quando me amarraste as mãos foi como se inventasses um Deus instantâneo e desvairado e, daí em diante, abençoado por uma louca decepção do tempo, fui entrando pela loucura com a mesma imponência que os exércitos entravam em portos e cidades e pilhavam ao dia a sua intima e inesquecível capacidade de amar a luz e de a apropriar. Contudo, continua a ser o toque essa primeira metafísica. Disse-te que eras uma pessoa e que te poderia dar o vento, como se dissesse que estava disposto a uma espécie de coisa impalpável para chegar ao indizível.

Se me chamares é porque Deus existe – pensava eu.

Se me chamares é porque talvez te lembres e se te lembrares significa que ainda é brutal o coração que acolhe o que já não sou. Envelheci. Fui andando, fui partindo e contudo não deixo de nos fixar, com o vigor do vento sobre os pomares ou a ilusão dos muros quando nas tardes mais longas se demoram na memória, na companhia das trepadeiras e dos olhares inocentes de quem se despede e só depois poderá morrer, sem que se dê conta, ou se lamente, ou até mesmo sem que o dia caia mais cedo por nada saber.

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