História de amor - 2

E ao teu corpo deixei a sala inteira, os livros, os sofás carregados de histórias, a janela carregada de invernos e de passagens muito secretas pela solidão.
E ao teu gesto deixei a música, a mais antiga possível, a que só as minorias fora de moda ainda escutam e libertei da memória que ainda guardo do teu ombro quatro ou cinco espécies de bichos que não param de morder ou de rastejar pelas imagens que ainda são as imagens que me seguram a vida.
Poderia dizer que por ti teria libertado alguns pássaros, mas não. Não consigo sequer saber como podem os pássaros continuar a sua rota havendo sobre a miragem da tarde o cais que sempre fora o teu ombro ou sobre a miragem da vida o teu olhar mais fundo e silencioso.
O teu olhar sempre foi um oceano,tu que gostas de oceanos e que nem sabes o quanto não são aliciantes esses mares, comparativamente ao copo de chá que seguras enquanto olhas o jardim da sala. Atravessei continentes nesse copo e dobrei os cabos todos que havia para dobrar ainda que pudesses não entender que era uma rota aquilo que eu construía num silêncio abismal como só aos percursos solitários é dado construir quando são delineados para um encontro.
Deixo ao teu corpo a sala inteira e vou dormir com todos os livros e todas as histórias que ainda não escrevi, mas que vislumbro já do olhar que lanças ao mundo do alto do teu copo de chá, enquanto guardas o nosso jardim.


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