O TELEFONE DE FAMÍLIA
A rede telefónica chegou a Fafe em 1931. O meu avô
Bernardino foi dos primeiros cidadãos a aderir. A lista telefónica desse ano possuía
apenas 38 assinantes, na sua maioria empresas. O nosso número de telefone fixo
é o mesmo desde a sua chegada à nossa terra. Agora, que para quase nada serve,
nem assim equacionamos o seu cancelamento. Há uma história imensa naquele
número, repleta de boas e de más notícias, todas constituindo a nossa realidade
pelo tempo fora.
Quando era miúdo, telefonávamos uma vez por ano para o
Brasil. Normalmente após o jantar. As novas gerações não o saberão, mas as
chamadas não eram feitas diretamente como hoje. Tínhamos de ligar para a Rádio
Marconi, onde uma senhora nos perguntava o número internacional que pretendíamos
contactar. Seguidamente, ela marcava o número e perguntava:
-Boa noite, tem uma chamada de Portugal do posso passar a
ligação?
A razão do telefonema era sempre a mesma: saber como estavam
os primos brasileiros e em que dia chegavam a Fafe para as habituais férias de
verão. O telefonema raramente excedia dois minutos e, mesmo assim, custava uma
fortuna.
Os telefones eram tão importantes que sabíamos de cor uma
série de números, dos familiares mais chegados, dos amigos e de algumas
instituições. Por brincadeira, ainda me divirto a relembrar aos meus amigos os
seus antigos números fixos.
Os telefones fixos eram moderadamente utilizados. Tinham
código de conduta, horas próprias, custavam algum dinheiro. Usava-se quando era
mesmo preciso. Eu não gosto de conversar ao telefone, a menos que seja com
alguém cuja distância nos impede de o fazer. Gosto de estar com as pessoas. O
telefone é para dar um recado, marcar um encontro, fazer uma pergunta breve.
Quando fui estudar para Lisboa, ligava para casa das velhas
cabines públicas, quase sempre à mesma hora, para saber notícias e dar sinal de
vida. Umas breves chamadas, pois, as moedas eram engolidas sofregamente nas interurbanas.
O universo da rede fixa tinha mapa, indicativos, começávamos
logo a viajar na marcação do número. Sabia bem ligar para fora da terra, era
especial.
Sei bem que os ganhos da rede móvel são muitos. Aliás, a
primeira vez que me apercebi que os comboios tinham instalado telefone ocorreu
num dia de matrícula na Universidade e que, chegando em cima da hora à estação,
não pude avisar a que horas teriam de me ir buscar a Guimarães. Lembro-me bem
da figura que fiz quando, entusiasmado com o avanço da tecnologia, disse em voz
alta, para espanto dos primeiros passageiros da carruagem bar.
- Mãe, estou a falar de um comboio, de um comboio em movimento!
Confesso-me fã da rede fixa e de todo um imaginário que a
povoava. Quem atendia, na maioria dos casos, era uma surpresa. Que membro da família
chegaria primeiro? Até isso era um jogo de sorte ou azar.
O telefone a tocar era um quebrar de rotina, era importante,
era porque havia novidade, como por cá se dizia. A
novidade da chamada e não a banalidade do estar sempre ligado. E no meio de
tudo isto, só lamento não ter o velhinho objeto que teve de ser entregue aos
TLP, quando avariou, para receber um novo, modernaço mas a puxar para o feiote,
digo eu….



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