RETRATOS FANTASMAS



Andava para ver o filme Retratos Fantasmas de Kleber Mendonça Filho, há vários meses. 

A primeira tentativa foi no Cinema Ideal, em Lisboa, um local de sobrevivência do cinema que escapa ao dito circuito comercial, e a vida não mo proporcionou. Para remedeio existe a plataforma Filme in de que sou assinante e me deixa sempre com a sensação de que lá temos uma grande parte do que de essencial o cinema nos foi reservando ao longo dos tempos. E, na segunda tentativa, versão remedeio, lá consegui ver o filme. 

Uma das minhas cidades do coração é o Recife e este documentário fala do tempo a passar pela cidade, sobretudo pelas salas de cinema que outrora se enchiam com multidões de espectadores e hoje se encontram fechadas, ou vendidas a igrejas evangélicas ou ao simples e trágico abandono. 

Este é um filme que recomendo pela forma como o realizador constrói uma narrativa escrita e fílmica que nos demonstra em modo íntimo a grande relação dos humanos com o tempo. 

Atrevo-me mesmo a dizer que, na verdade, é um filme sobre o tempo, tendo as salas de cinema como instrumento de demonstração. O tempo a passar no Recife, cidade onde moram familiares nossos e amigos, gente com quem partilho a narrativa dessa passagem e onde me abrigo espiritualmente com a regularidade da saudade, da beleza e da liberdade. 

O filme Retratos Fantasmas é imperdível para quem se detém a observar o edificar das gentes nos lugares e nas épocas, as pessoas que ficam e as que partem, as coisas que deixam como se fossem para sempre e que depois desaparecem ou se transformam, os sítios que são uma invenção tão bela e tão dinâmica onde nos nascemos, nos vivemos e nos morremos. 

Quis muito ver este filme porque ao longo da vida morremos muito e morre-nos muita coisa. A última vez que vivi em Lisboa, andei à procura da Lisboa onde tinha vivido na minha juventude. Aconteceu à cidade o que me aconteceu a mim: tínhamos morrido ambos. 

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