POETAS DA MINHA VIDA
Estivemos em Loulé, tomámos uma água fresca no Café Calcinha e lá nos deparámos com a estátua de António Aleixo. Quando era jovem comprei um azulejo que contém o retrato do poeta e os famosos versos:
“Vós que lá, do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo, a sério!”.
Está pendurado numa parede da nossa casa. Deveria ser distribuído a todo o aspirante a político para que nunca esqueça este princípio essencial.
Regressar a Loulé é o retomar de Aleixo e da aprendizagem sobre o valor deste género poético.
No mesmo período conheci Manuel Ribeiro, o 34, poeta, mestre em gazetilhas, uma forma poética de difícil rasgo. Nunca mais houve em Fafe um poeta assim. Escrevia com inteligência, sagacidade e humor sobre a vida quotidiana da nossa terra e do país. Publicava no jornal “Justiça de Fafe” dirigido pelo também inigualável António Augusto Almeida. Tinham ambos vindo das ex-colónias e uma vontade insuperável de intervir e de ver a terra com um cosmopolitismo que também merecia.
Mas o Manuel Ribeiro, além de poeta, foi um ser humano a sério, dedicado, companheiro, disponível. Tinha uma esperança infinita na juventude e nunca virou as costas a qualquer expressão mínima de talento. Estava sempre, dava força, encorajava, desviava o medo e tratava os sonhos como coisas da vida, sem bazófia, sem ser fiteiro, sem mentira.
O Manuel Ribeiro foi um grande amigo e um incentivador a quem muito devo e jamais retirarei a sua mão do meu ombro.
Ainda conseguiu estar na fundação da patinagem artística em Fafe, no Grupo Nun’Alvares, a que carinhosamente chamava de Andorinhas. Não festejou a alegria de serem permanentemente das equipas portuguesas apuradas para os campeonatos europeus da modalidade com campeões no palmarés. A vida terminou antes, mas não antes de ali ter semeado o sonho.
Com o Manuel Ribeiro poeta vivi momentos que recordo muito.
Deixo uma gazetilha de sua autoria que relata a transformação da loja do meu avô num novíssimo estabelecimento de pão quente.
Foi escrito em Novembro de 1984.
PÃO QUENTE
É um ror de gente
A comprar pão quente
No Martins da Avenida
Este facto dá sensação
Que parte da população
Nunca comeu pão na vida!
Chega a haver discussão
Apenas por esta razão:
«Eu estava primeiro»!
E culpa a empregada
Senhora mal humorada
Que não viu o padeiro!
Perguntei ao Zé Maria
Se ele, amigo, me vendia
A bomba de gasolina
Para transformar já
Em posto de vinho e chá
Era negócio da China!
Para fazer a transação
Ele impôs condição
Que eu não aceitei:
- Ficas com os empregados
Pagas-lhe gorgetas, ordenados
E os descontos da Lei!
É não ter sorte na vida
Perder filão do Martins da Avenida
O melhor freguês seria eu!
Tenho de aceitar a realidade
E recordar com saudade
A melhor «fazenda» do Pompeu!




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