O sentido do verão.
O verão é para mim um tempo de agitação tranquila. Tempo que se encontra para arrumar ideias, para leituras em atraso e para colocar a criação no topo da agenda.
Nos últimos anos, tenho-me desafiado a escrever uma nova série de poemas por esta altura do ano. Assim o fiz mais uma vez, numa saudável tradição. São dez poemas em torno das questões que confrontam o enraizamento e o desapego. Uma coleção que há de figurar num novo livro a publicar quando for possível, sem pressas e sem obstinações.
O tempo de mudar o escritório para as praias, onde leio calmamente, onde escrevo e acrescento algum rabisco à minha nova paixão que é a de construir um diário gráfico. Sempre me interessou este tipo de abordagem e nunca tinha ousado fazê-lo eu mesmo.
(o regresso aos lugares onde ia com quem já não está)
(a admiração pela resistência, também cultural, de Odessa)
A minha paisagem de férias são muitas e respondem sempre a algumas das minhas necessidades primeiras: reencontrar-me com o silêncio livre, com a memória das pessoas, das coisas e dos lugares que ainda amo, com a intimidade do que me é íntimo e com a dose de espanto que acrescente ao território emocional de que não abdico.
Estar de férias e ir, ir com a mesma mestria das formigas recolectoras, ir para guardar e poder fruir o resto do ano. Fruir daquilo que se preparou como uma imensa dedicatória ao tempo futuro que ha de ser um bom tempo, pelo menos deve ser esse o espírito que devemos manter, em respeito ao estarmos vivos e estarmos prontos para acrescentar ao universo que, sendo o nosso, é sempre de todos aqueles a quem, direta ou indiretamente, nos damos.


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