A DEMOCRACIA E O DESPUDOR EXTREMISTA
“Até quando fomos invadidos, até quando os espanhóis nos dominaram e escrevemos os lusíadas, até nesse momento tivemos coragem de pegar no bispo de Zamora, que estava na cidade de Lisboa, e atirá-lo lá de cima da torre. Não digo que façamos isto a António Costa… mas já me pass… não é que o nosso Parlamento é alto! Lá de cima, também… Mas reparem como tivemos essa força. É verdade: foi atirado da torre e depois foi dado de comer aos cães. Não é para terem ideias, mas nós estamos noutro momento de risco da pátria”, brincou Ventura, perante gargalhadas e aplausos da plateia» (citação da CNN Portugal)
Estas afirmações do líder do Chega refletem com grande
clareza aquilo a que se propõe a extrema-direita em Portugal e a perigosidade
imanente destas ideias e atitudes integrarem a normalidade quotidiana da nossa
vida política. E não, não é uma brincadeira, nem uma piada.
É perigoso da parte de quem as profere, uma vez que André
Ventura não é um cidadão desinformado que, a reboque de opiniões alheias, profere
excessos condenáveis do ponto de vista civilizacional, no calor das emoções. O
autor deste pensamento é doutorado em Direito Público e conhece, de forma muito
superior à média dos cidadãos, o alcance daquilo que afirma. Tudo quanto é
sublinhado por si e pela direção política deste Partido é feito de forma
consciente e com convicção plena.
Por muito que custe aos Partidos democráticos de esquerda e
de direita existentes no nosso país e aos cidadãos que neles se reveem e votam,
Portugal tem uma força política de extrema-direita que, de forma assumida e consciente,
atenta contra o sistema democrático e os Direitos Humanos. Isto é absolutamente
claro quando se utiliza uma comparação desta natureza que apela à mais
elementar forma de violência efetiva e simbólica.
Se há coisa que este
Partido conhece bem é a dimensão do poder simbólico e a forma como este produz
e reproduz efeitos na consciência coletiva. O uso de «encenações teatrais» no
palco parlamentar são disso exemplo diário, assim como o uso despudorado de
argumentos falseados da realidade nacional, da atividade do governo e dos
demais partidos com assento parlamentar.
A tática da reprodução sistemática de cenários que algum
senso comum tem como verdadeiros, embora o não sejam, é o grande filão deste
Partido. No caso que motivou as declarações supracitadas sobre a entrada e
permanência de cidadãos estrangeiros no nosso país, o Relatório do Observatório
das Migrações é muito claro: "foram atingidos saldos financeiros bastante
positivos e inéditos, situando-se em 2019 em +884,4 milhões de euros e
em 2020 em +802,3 milhões de euros. Verifica-se, pois, que a relação
entre as contribuições dos estrangeiros para a segurança social (+995,5 milhões
de euros em 2019 e +1.075,2 milhões em 2020) e os gastos do sistema com
prestações sociais de que os contribuintes estrangeiros beneficiam (-111,1
milhões em 2019 e -273 milhões em 2020) é bastante positiva e favorável em
Portugal".
A proliferação do discurso do ódio é inaceitável, mesmo que os números fossem outros. E, também nisso, muito bem tem estado o Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, mantendo-se vigilante do respeito pelos Direitos fundamentais e pela Constituição.
O grande desafio que toda a classe política
tem à sua frente, da esquerda à direita, é demonstrar à exaustão ao que veio e
o que pretende este Partido fazer ao regime e à civilização que construímos,
que estamos a construir e que construiremos em nome da liberdade, da dignidade e
de um progresso de rosto humano e solidário. E isto não é um desafio deles, é um
desafio nosso!



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