A DEMOCRACIA E O DESPUDOR EXTREMISTA


(Pintura de Maria Helena Vieira da Silva)


 “Até quando fomos invadidos, até quando os espanhóis nos dominaram e escrevemos os lusíadas, até nesse momento tivemos coragem de pegar no bispo de Zamora, que estava na cidade de Lisboa, e atirá-lo lá de cima da torre. Não digo que façamos isto a António Costa… mas já me pass… não é que o nosso Parlamento é alto! Lá de cima, também… Mas reparem como tivemos essa força. É verdade: foi atirado da torre e depois foi dado de comer aos cães. Não é para terem ideias, mas nós estamos noutro momento de risco da pátria”, brincou Ventura, perante gargalhadas e aplausos da plateia» (citação da CNN Portugal)

Estas afirmações do líder do Chega refletem com grande clareza aquilo a que se propõe a extrema-direita em Portugal e a perigosidade imanente destas ideias e atitudes integrarem a normalidade quotidiana da nossa vida política. E não, não é uma brincadeira, nem uma piada.

É perigoso da parte de quem as profere, uma vez que André Ventura não é um cidadão desinformado que, a reboque de opiniões alheias, profere excessos condenáveis do ponto de vista civilizacional, no calor das emoções. O autor deste pensamento é doutorado em Direito Público e conhece, de forma muito superior à média dos cidadãos, o alcance daquilo que afirma. Tudo quanto é sublinhado por si e pela direção política deste Partido é feito de forma consciente e com convicção plena.

Por muito que custe aos Partidos democráticos de esquerda e de direita existentes no nosso país e aos cidadãos que neles se reveem e votam, Portugal tem uma força política de extrema-direita que, de forma assumida e consciente, atenta contra o sistema democrático e os Direitos Humanos. Isto é absolutamente claro quando se utiliza uma comparação desta natureza que apela à mais elementar forma de violência efetiva e simbólica.

 Se há coisa que este Partido conhece bem é a dimensão do poder simbólico e a forma como este produz e reproduz efeitos na consciência coletiva. O uso de «encenações teatrais» no palco parlamentar são disso exemplo diário, assim como o uso despudorado de argumentos falseados da realidade nacional, da atividade do governo e dos demais partidos com assento parlamentar.

A tática da reprodução sistemática de cenários que algum senso comum tem como verdadeiros, embora o não sejam, é o grande filão deste Partido. No caso que motivou as declarações supracitadas sobre a entrada e permanência de cidadãos estrangeiros no nosso país, o Relatório do Observatório das Migrações é muito claro: "foram atingidos saldos financeiros bastante positivos e inéditos, situando-se em 2019 em +884,4 milhões de euros e em 2020 em +802,3 milhões de euros. Verifica-se, pois, que a relação entre as contribuições dos estrangeiros para a segurança social (+995,5 milhões de euros em 2019 e +1.075,2 milhões em 2020) e os gastos do sistema com prestações sociais de que os contribuintes estrangeiros beneficiam (-111,1 milhões em 2019 e -273 milhões em 2020) é bastante positiva e favorável em Portugal".

A proliferação do discurso do ódio é inaceitável, mesmo que os números fossem outros. E, também nisso, muito bem tem estado o Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, mantendo-se vigilante do respeito pelos Direitos fundamentais e pela Constituição.  

O grande desafio que toda a classe política tem à sua frente, da esquerda à direita, é demonstrar à exaustão ao que veio e o que pretende este Partido fazer ao regime e à civilização que construímos, que estamos a construir e que construiremos em nome da liberdade, da dignidade e de um progresso de rosto humano e solidário. E isto não é um desafio deles, é um desafio nosso!

 



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