Diálogo interior
Mircea Roman - Bienal de Cerveira 2019
Na semana passada, fui a Vila Nova de Cerveira visitar a exposição de escultura do romeno Mircea Roman. Senti-me em terra e em tempo na sua obra. A ela voltarei de outra forma. Estas duas figuras inspiraram este diálogo.
DIÁLOGO INTERIOR
Talvez seja isso. Existirem sempre dois mundos. distâncias absolutas que só se reduzem pela capacidade efémera das palavras que se entregam e vão fazendo a eternidade de que só conhecemos o rumor.
Ela disse-lhe:
- Não sei se seria capaz de amar-te.
Ele respondeu-lhe:
- Basta-me saber que estás naquilo que imagino ser a esquina de um tempo e de um mundo onde só chego no que não alcanço. Daí que te ache tão perfeita.
- Não sou capaz de imaginar-te, sequer.
- E isso é a única esperança que tenho em que me possas vir a amar alguma vez.
- Tenho um vestido vermelho e olho para um antigo infinito.
- Eu estou nu e curvado, recolhendo tudo o que o teu velho tempo plantou num coração desdatado como o meu. Colhendo o que imagino que seja o que sobra do teu olhar, as minhas melhores perguntas, os teus melhores gestos, as vezes em que me esqueço de morrer. Não achas que será isso uma espécie de amor?
- Acho que sim.
- E então?
- Então o quê?
- Sentes o mesmo?
- Não. Sinto que só te amarei quando me esquecer de morrer.
- E não te esqueceste?
- Não. Tive medo de morrer em mim e depois em ti.
- E isso não é um principio?
- Talvez seja, o principio de perguntar.O medo é uma primeiro pergunta.
- Então eu espero.
- Ainda que eu nunca chegue?
- Não entendo.
- Ainda que eu nunca chegue?
- Não faz sentido.
- Como assim?
- Não te preocupes. Quando sentires que vens eu saberei e isso só te importará a ti.
- Acho que isso é uma prova de amor.
- Eu também.



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