A natureza do desejo.



As escadas. As sombras sobre as escadas. O corpo sobre as escadas. As suas feridas. O amor aos pedaços. Não há uma forma de segurar as emoções. Há uma forma de suster a respiração e olhar o horizonte sem que a liberdade de olhar se canse de ser a nossa parte que sempre parte.
Somos um animal de luz e de sombra, um animal antigo, um animal muito doce e muito triste para que assim consiga inventar a possível alegria. 
Tenho do tempo a noção de uma profunda inquietude onde tudo está por fazer, para acabar sepultado no melhor das horas que não somos nem sabemos. Essa fatalidade é a única felicidade dos humanos: ser sem que se saiba completamente.
Deixo-te uma flor entre as mãos, uma flor que não é uma flor mas que sou eu a tentar expressar tudo o que  uma flor possa ter sido entre mim e a minha ideia de ti.
Deixo-te uma fera que é a forma de sentires o quanto é possível ser a ferida e a cura dos dias enfurecidos e por isso tão extremos no amor. Não há amor sem fúria, nem fúria sem a razão maior de amar a impossibilidade das coisas.
O caminho é a impossibilidade e os cadáveres de hoje vivem apenas dos dias possíveis, do possível amor, da desnecessária alegria, da esperada palavra, ou seja: de tudo o que morreu por ser sabido, por ser evidente, por ser na fronteira putrefacta das horas esperadas.
Quero matar-me na tua vida e dar por mim como se alcança uma manhã e para dela romper a virgindade da luz e nela romper o que se não sabe para se poder ser.

Herdo-te no que não tenho, sobrevivo-nos porque o desejo é uma pergunta, infinitamente isso.

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