Adeus
Foto PMM - Gaia
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Olha pela janela e conta os pássaros, as árvores da paisagem, as crianças, os velhos e volta para ti como se te esperasse o paraíso no curso dessa viagem. Lembra-te de mim e do que te não disse. Faz disso a nossa melhor história.
Um dia, apanhámos o comboio numa estação no Sul de Itália. Houve uma mulher muito bela que me pediu lume enquanto tu me pedias para te dizer se alguma vez te trocaria. Lembro-me de te ter respondido que nunca troquei nada nem ninguém. Que apenas vou morrendo frequentemente e que, como tal, há pessoas e lugares que me perdem. Lembro-me que me abraçaste cheia de medo, não que eu morresse, mas que me pudesses perder. Então, antes de entrarmos para o comboio, perguntei-te se querias fazer a viagem comigo, mesmo correndo o risco de eu não ser eterno. Disseste-me, enquanto se te embaciavam os olhos:
- Todos havemos de morrer um dia, pelo menos uma vez, e nem por isso deixamos de viver.
O comboio partiu ao final da tarde. Uma tarde quente de Setembro. Estávamos no Sul de Itália e os teus olhos morriam nos meus de tão belos, de tão irrepetíveis. Percebiam que o amor ē uma ciência, é uma imensa sabedoria. Saber que se nasce para morrer um dia, a cada dia, e que mesmo assim, e que só assim, é possível construir a beleza e seguir. Nem o amor nem a beleza se conquistam à chegada, só quando partem se elevam. E, quando partem, ficam e contam o que será.
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Há um planeta inteiro para nos morrer no coração e hoje ē o dia. Apanha esse comboio e deixa-me onde ainda não chegou o coração. Nem o teu, nem o meu. É aí que quero morrer. Por ser aí essa pátria de esperança, muito virgem, muito virgem de despedidas de todos os outros lugares por onde passámos e não paramos, mas que nos faltam e, por faltarem, significam.
Apanha comigo esse comboio e deixa-me nessa viagem. Se eu não chegar nunca, não me procures, eu sou a tua viagem. Se me não vires esta tarde não faz mal, estou no sul de Itália numa velha estação a dizer-te com os olhos embaciados que o amor não se explica e que por isso te posso morrer. Estou nessa estação à espera que partas e que entendas que o amor também é uma despedida, uma longa e bela despedida.
Apanha comigo esse comboio e olha pela janela. Podes acenar assim que o comboio começar o seu curso e vê, vê com os olhos molhados como ficamos nessa estação, julgando-nos eternos. Vê como partimos, como se está sempre a partir. Podes acenar. Podes dizer uma ou duas palavras sobre essa parte de nós que ficou e que morrerá por ali.
Chega-te a mim. Está a arrefecer nesta carruagem. E o futuro, o futuro é sempre um lugar frio. Assim que chegarmos, estaremos a morrer novamente, mas é isso o amor, a sabedoria do amor. Estaremos a morrer e tu a perguntares se eu ficarei e eu a dizer que se fica muito quando se morre.
Assim que chegarmos, vou dizer que nunca te deixarei. Que morro muitas vezes e que, por isso, há pessoas e lugares que me perdem. Apanha comigo esse comboio. Não deixes de dizer adeus, pois só dizemos adeus ao que queremos levar para sempre.
Assim que chegarmos, vou dizer que nunca te deixarei. Que morro muitas vezes e que, por isso, há pessoas e lugares que me perdem. Apanha comigo esse comboio. Não deixes de dizer adeus, pois só dizemos adeus ao que queremos levar para sempre.



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