As vindimas.
Regressámos às vindimas. Um ritual extraordinário de colheita. Colher as uvas que se trataram ao longo do ano, sulfatadas a seguir às feiras de Maio, ainda que o hábito deva ser repensado conforme o ano e o clima.
Voltar às ramadas e aos bardos. Arrancar as uvas e preparar o vinho. Voltar à geometria dos arames que se cruzam no alto das videiras e ao engenho de lançar a escada sempre com altura que chegue para que, caso um arame rebente, haja lanços suficientes que esbarrem no arame a seguir e nos segurem no alto da ramada, evitando a queda.
As vinhas. As nossas. Plantadas pelos ancestrais, cuidadas ao longo de décadas. O nosso vinho. O vinho das nossas conversas, das nossas sombras de verão, dos lanches por baixo da ramada, das memórias retomadas nessa sombra. Os que estão e os que já faltam a essa luz, mas que sempre voltam, porque ter uma ramada é também ter um lugar de regresso, é também ter uma ponte entre mundos.
E de súbito a magia dos Homens a trazer tudo e a trazer todos e a ouvirmos o que já só o coração escuta, as gargalhadas, os afectos, as partidas e as chegadas, as despedidas programadas de final de verão aos que iam para o Brasil, para França, para o Porto, e as despedidas súbitas dos que foram morrendo, sem aviso, sem cuidado. Nunca se cuida uma morte. Não é possível. É sempre mais forte do que nós. Nunca se preparara nem se está preparado. Mas as vinhas ficam e nós lá as vamos cuidando, como se não desistíssemos das pessoas e das suas histórias.
Este ano lá voltámos a essa felicidade, a esse reencontro, a essa riqueza mais funda que qualquer coisa que o dinheiro compre ou o poder conquiste. Voltámos à nossa forma de sermos um círculo, uma ilha, um pedaço de existência quase perfeito, quase sem palavras que consigam explicar essa magia que nos liga. Uma religião no sentido primordial da palavra: voltar a ligar, nunca quebrar a ligação, re-ligar. Uma família é isso.
Regressámos à nossa vindima, esmagámos as uvas no lagar, enchemos os pipos. Agora esperaremos até Novembro para ver como sairá o deste ano. O meu filho mais velho já vindima. O mais novo ainda não sobe à ramada. Chegará o seu dia. As vinhas hão-de continuar. O importante e o único nisto tudo é a sua singularidade. É serem as nossas vinhas, a nossa família, o nosso vinho e a nossa narrativa. Nada disto se compra. Nada disto está disponível na modernidade das grandes superfícies e num certo capitalismo que fica a léguas do nosso pequeno canto. Nada disto se consegue sem o amor que se põe nas coisas. Essa sim, a riqueza que importa. Que nunca nos falte.
Em Novembro provaremos o vinho e compararemos tempos. No Natal regressaremos à adega, e traremos de lá o tempo todo, os nossos todos, sempre inteiros, sempre sentados na nossa mesa, ainda que nas suas cadeiras estejam os que vieram a seguir, os que sabem destes pelas narrativas que o tempo ainda guarda no coração dos que ainda ficaram e têm na sua rota a missão de contar e recontar a mais genuína riqueza que se pode deixar aos que ficarão a seguir a nós: a nossa razão, o nosso sentido, a nossa maneira de sermos íntegros e de morrermos muito depois da nossa morte.



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