3 Retratos de Partida
1)
Há uma narrativa no que se não conhece.
Uma narrativa de tempos que não são teus.
Uma narrativa que te espera.
Como só a morte sabe esperar.
Até lá terás de viver.
2)
Existe sempre uma vez em que perguntas
pela direcção que segue
aquilo que ainda te falta à Liberdade.
E nessa vez, há uma música que guardas do tempo da guerra,
um texto que sabes decor, um instante que não viveste
mas que quase te mata de saudade.
Existe sempre essa vez
de não esqueceres aquilo que só a dor ensina
e, na outra margem, o que nunca te faltou
porque o imaginaste
e te foi ditando, um a um, cada instante que na sombra
te abandonou a mais bela face da Liberdade,
só para que o soubesses e aí morresses
sem um lamento.
3)
Estás pronto a partir. Põe o cachecol. Esquece o Verão.
Esquece os violinos impossíveis que contavam
o que devias ao medo.
Esquece o piano a detalhar-te as horas de ficar
no lodo impossível do que te viam por fora.
Leva a memória, apenas isso. Leva-a para que nunca tenhas de voltar.
Estás pronto. Põe o cachecol. Esquece o Verão.
Há uma parte da vida onde não chegaste ainda
e onde será diferente morrer.
Varsóvia, 12 de Setembro de 2011





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