Resistências.



Durante o voo até Bruxelas, para integrar a equipa que organiza a formação europeia sobre participação de jovens na vida política, a ter lugar em Portugal nos próximos dias 4,5,6 e 7 de Julho, e preparar os trabalhos de coordenação desta actividade que reunirá no nosso país os responsáveis pela implementação das iniciativas da Comissão Europeia nesta matéria, através do Programa Comunitário Juventude em Acção, estive a ler o último best-seller relacionado com participação cidadã da autoria de Stéphane Hessel, um Diplomata e Resistente francês, co-autor do texto da declaração Universal dos Direitos do Homem, sob o título de «Indignai-vos!». Esta obra tem o prefácio de Mário Soares, uma indiscutível referência histórica mundial do século XX.
Aconselho a leitura deste livrinho, uma vez que não excede as 50 páginas, mas que toca em questões fundamentais sobre o tempo e o modo como deve evoluir a participação cívica e política dos cidadãos no actual quadro de relações sociais, económicas, culturais e políticas do mundo contemporâneo.
A resistência por via da não-violência e a procura por parte dos cidadãos das suas causas para lutar e expressar pacífica e eficazmente a sua indignação são as linhas mestras deste texto de Hessel que, com os seus 93 anos, mantém uma atitude de permanente intervenção e de especial cuidado com aquilo que entende ser útil transmitir às novas gerações.
Da obra «Indignai-vos» saliento a preocupação com a manipulação manifesta da informação que aos povos chega, por via das preocupantes regras de mercado que fascinaram os magnatas da informação e contribuíram para um certo tolher colectivo que se resignou à ausência de espírito crítico e a uma mentirosa exposição de reality-shows que nada têm de realidade, mas antes de equívocos que levam as pessoas e as comunidades a jogos de submissão inacreditáveis, vencidas que estão a ocidente as clássicas ditaduras e vigorosas que se apresentam as novas expressões de dominação que, não sendo políticas, usam o poder político para provocar mazelas fundas na que deveria ser a consciência esclarecida dos cidadãos, a quem foi conferida a liberdade de ser e representar um Homem um Voto.
No nosso país, mas só aparentemente, e graças à crise financeira, não haverá grandes questões a discutir nos tempos mais próximos no que concerne á ideologia. Mas, desenganem-se as pessoas, pois é nestes momentos de maior sufoco material que as questões ideológicas têm palco. É nestes momentos que os que tudo têm ameaçam seriamente os que menos possuem. É nestes momentos que a relação do mais forte e do mais fraco mais se evidencia, tendo as forças que lutam por um sistema de equilíbrios sociais o seu momento para aprofundar estratégias e mostrar eficientemente que a Economia é a ciência que deve gerir os níveis de satisfação dos povos e equilibrar as relações de força no seio de uma sociedade que não deve transigir nas suas obrigações de justiça, paz social e igualdade de oportunidades.
Uma obra a reter. Um exemplo a não desperdiçar num tempo tão dolorosamente silencioso e tão fundo em certas resignações.

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