Flores para R.


(ao Ricardo, como se fossem as suas flores favoritas.)

1
Nunca serei poeta suficiente
para o sorriso,
para o fundo abraço,
para as longas tardes onde tudo
roubavas ao futuro do mundo.

Nunca serei poeta suficiente
para te contar.

Mas sei que há poemas
que se não escrevem,
sendo só o tempo o seu dono
e a infinita passagem
a única e a mais justa forma
de os expressar.

2
Ficas no lilás das árvores,
na luz da cidade,
na cor tão difícil que a saudade
mistura com os dias do mundo.

Ficas assim e eu contigo
como se nós e o mundo pudéssemos ser uma narrativa
com crianças e barcos e um rio inteiro
para partir de vez para o mais justo coração,
aquele que os pássaros conhecem,
os que partem de nós,
levando-nos como sempre levavam as estações.

3
E de súbito há um bairro
a atravessar-te o coração.
Ficas na filigrana das faces
e na leve ternura das expressões
que te embalaram.
O teu bairro é um baú
onde se guarda o que se não tem
para a cautelosa idade da saudade.

4
Ainda há uma lâmpada em vidro
acesa ao cimo das escadas.
Só se apaga o que se não conhece.
Subimos até à porta. Batemos.
Estará sempre alguém em casa
enquanto soubermos de nós.
E do lado de dentro seremos os mesmos
que do lado de fora. Uma verdade na vida
é sempre tão provisória quanto sublime
é a noção de que o tempo só nos serve
para o desconhecermos bela e fundamente.

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