Brugge

Sentado na tarde de Brugge. Uma cerveja conventual a refrescar a ideia de que o tempo que resta é cada vez mais precioso, por ser cada vez menos. E ao mesmo tempo o desconforto por reduzir a emoção à aritmética do tempo. De facto, as revoluções fazem-se de inquietações e desconfortos, e na tarde de Brugge, junto a um dos muitos canais, dei-me ao luxo de parar e perguntar para dentro acerca dos passos que ainda não aconteceram para, a seguir, responder, em parte com os passos dados, com o que outros me deixaram, com o que havia prometido a mim mesmo e aos demais, e descobrir uma espécie de oasis feito de sombras e incêndios, mas um oasis, aquele a que temos o dever de chegar enquanto por cá estamos.
O oasis de uma existência é o sítio onde conseguimos equilibrarmo-nos com a sensação de dever cumprido. E o dever cumprido é o termos acrescentado uma palavra, um sorriso, um desejo a qualquer outro que não sejamos nós mesmos.
A andar a pé pelas ruas e pelas margens dos canais de Brugge, a desafiar em cada passo o impossível que justamente nos deve surgir quando somos tocados pelo amor. Pelo amor às pessoas, pelo amor às causas, aos objectos, aos lugares, pelo amor.
Uma vez consegui defenir a existência de Deus como o expoente máximo de tudo, desde emoções, a coisas, a sítios ou a pessoas. E de repente é como se essa minha ideia de Deus voltasse a significar mais e a perceber que a cada passo se evidenciava um caminho, uma certa sensação de não estarem completas uma série de coisas, e de querer rasgar no horizonte esse outro caminhar, apenas pela simplicidade de ter a sensação de continuar a cumprir um dever, apenas pelo simples arrojo de pensar que ainda há muita estrada pela frente, que é o mesmo que afirmar que ainda há muito para dar, mas para dar na simplicidade das pequenas coisas, no recato dos gestos, no sussurro das mais fundas inquietações, nas mais genuínas e sempre intermináveis fronteiras do que há-de ser o Homem novo.

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