Copenhaga por dentro.


Um frio literário em Copenhaga. Tão literário que tive de comprar um casaco de inverno e agasalhar-me enquanto calcorreava as ruas à procura das casas, das cores e das sombras que povoavam as histórias da minha infância.

Gosto de chegar às cidades e confrontar-me com as cidades que imaginei ao longo da vida. Não para me certificar se elas correspondem ao que tinha imaginado, mas antes para descobrir nelas aquilo que pensei, aquilo onde me demorei a construir estéticas, desejos, passagens pela vida em torno de uma qualquer coisa muito parecida com a liberdade, por se tratar de partidas constantes para lugares que só existem porque deles assim nos fomos apropriando, porque assim os fomos lendo para nós, num exercício muito íntimo e muito livre.

Quando era pequeno, imaginava as cidades do norte da Europa com cores quentes, muito diferentes do branco e do cinzento que tinham as nossas vilas. E nessas cores conseguia entrar para um frio que, também ele, era muito diferente do nosso e trazia consigo a lonjura que é das coisas mais belas de se sentir, a par da saudade.

Quando cheguei a Copenhaga, mudei-me para esse estado de alma e fui à procura de vozes, das vozes que me liam histórias na infância, a voz da minha mãe a incentivar-me à leitura com bocados de narrativas de uma caríssima colecção de livros que então me oferecera, mesmo antes de eu saber ler, da voz da minha avó que me contava continhos e de outras vozes que me fizeram chegar as fábulas de La Fontaine e os contos de Hans Christian Andersen. Andei pelas ruas a fotografar janelas e a esperar que tudo pudesse voltar, não por saudosismo, mas pela necessidade que sempre tenho de tornar intimas as coisas, as pessoas e os lugares.

Em Copenhaga, recuperei o olhar do meu primeiro palhaço e da contra-luz de inverno que sobre a sua face caía, quando entardecia na varanda das traseiras da casa do Largo e havia um silêncio, quebrado apenas pelo ruído das panelas sobre o fogão, quando a Dores preparava o jantar. Esse ruído das rotinas da casa a marcar o tempo, a marcar o ritmo das vidas de então, tão diferentes das de hoje, tão compassadas, anunciando-se uma a uma.

A casa tinha essa musicalidade: as janelas de guilhotina a abrirem-se soavam às manhãs de primavera, o abrir dos gavetões das cómodas anunciavam o começo dos dias, as idas para a escola, a saída matinal da família, o som dos pratos e os talheres anunciavam as refeições e a chegada de todos à mesa de família. Mas havia também os sons sazonais: o burburinho do Outono quando se punham as panelas ao lume para fazer geleia e marmelada, o som dos fritos de natal, o som dos copos mais finos e mais bonitos que tínhamos para celebrar a Páscoa e a visita do Senhor Cónego Araújo, o som que teve a velhice do avô Bernardino através do abrir e fechar da porta do seu quarto, com a sobriedade que sempre lhe reconhecemos.

As casas têm esta música, tão funda e tão importante para cada um de nós. Uma musicalidade de que só nós nos lembramos, por ser efectivamente a mais importante da nossa vida, às vezes por não voltar, ou por se ir despedindo como nós mesmos nos encontramos e nos despedimos do mundo, desde o dia em que nascemos.

Em Copenhaga, retomei tudo isto e tive uma espécie de ajuste de contas com a memória. Um ajuste que valeu por ter acrescentado ao tempo passado, por ter, outra vez, a magnífica sensação de que a maior riqueza que possuímos é a capacidade de não passar em vão pela vida, é não deixar que as coisas não signifiquem, é ter sempre um tesouro para usar assim que se chega ao tempo e aos lugares, ter um tesouro para esbanjar, um tesouro no coração.

Comentários

Mensagens populares