Fecha-te.


pintura de Peter Paul Rubens - Leda and the Swan

Concreta a ignorância da alma sobre o momento. Nada há de mais concreto do que não entender o seu tempo e o seu contexto. Ainda que por poucos instantes, por dias, ou por horas. A ignorância da alma é mais palpável que um ferro em brasa, que um rochedo no corpo da terra, que uma tempestade face adiante.
Quando não sabemos o que fazer do espírito ou que fazer com o espírito, há algo que se desliga do mundo e abre no coração uma escuridão anónima. Toda a gente passa, uma vez que seja, por este sentimento.

Fecha-te como um cisne sobre o teu corpo.
Apaga o mundo. Despede-te das horas,
tentando ter algo para lhes dizer.
Não olhes vez nenhuma para o céu,
nem colhas do sol a luz crua
que tudo inventa à face da terra
e que te poderia gerar alguma frase
ou alguma réstia de expressão sobre as coisas.

Fecha-te como um cisne sobre o teu corpo.
Silencia-te e espera que da noite
possa emergir um lago de águas frias e puras
onde, a pouco e pouco, possas reerguer
a memória mais evidente
de quando um gesto tocava o dia
e o seu reflexo gerava a asa
que dele irrompia
deixando para trás a angústia
e a sua cruel e geométrica exactidão.

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