Praga 2
Acabado de entrar no quarto, em Praga, com a cidade a descansar sobre a memória. Um lugar de intimidades extraordinário, um lugar de reencontro com o que se deseja a todo o tempo que uma cidade possa ser.
Praga é um refúgio, genuíno, cheio de verdade e de encanto, cheio de realidade e de possibilidades para que a imaginação se não renda.
Praga das histórias carregadas de ideologia e de desespero, de secretismo e de intimidade.
Noite dentro escrevi uns textos para a música do Nelson e noite dentro fui saindo pela idade como quando tinha a idade de não haver horas marcadas para certas fugas, para certas formas de irromper pelo silêncio do mundo e deixar, ao de leve, a marca indelével das utopias.
Praga a abater-se sobre a alma como quem consegue beijar o tempo e deixar que nesse beijo se acariciem todos os que amamos alguma vez e que foram partindo, mas nunca de dentro.
Praga a relembrar a eternidade dos que nos restam, dos que sempre nos acompanham e dos que não deixam nunca de aparecer, assim que a emoção começa, ou a impossibilidade ganha corpo. E de cada vez que há uma impossibilidade, há um sonho que se levanta e uma voz que ergue na alma uma desmedida paixão. A seguir, virá o amor, o amor é também a engenhosa maneira que vamos encontrando para sabermos o que fazer com o que já sabemos das nossas impossibilidades.
Praga a pesar-me nos olhos como só nos pesam as palavras que se não esquecem, as palavras que nos criaram o mundo.


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