O corpo do verão.


Como se torna outro o corpo do verão. A serenidade perdida, o cais de longínquas paragens a não aparecer, a ser uma espécie de mentira, a não ser o merecido descanso.
Como o verão se transforma num corpo de inexistência a soar muito rente a uma existência enorme e avassaladora que invade as expressões, os sorrisos e as coisas onde se não descansa por se não ter.
Um verão de roubo e de partida para o desconhecido menos apetecível. Eu que sempre gostei e cultivei desconhecidos e mudanças, eu que sempre abominei rotinas e com elas marquei vencedores duelos. Eu que nunca quis dias iguais e que, agora, desejo dias iguais.
É assim a morte. É assim o retrato mais duro do irremediável. É assim que se desenha a perda que tantas vezes escrevi e que só agora conheço na sua dimensão maior.
É o verão a incendiar nos olhos todos os verões. É o calor dos dias a ser a expressão vazia do frio das horas. É o ter raízes e isso segurar tudo e o ter raízes e isso desabitar o presente e o futuro de tudo.
A morte é um engano. Aprendi isso. A morte é uma contradição à conquista tão dedicada do amor que sempre cultivámos e que nos fez sentir superiores a tudo. A morte a parecer que estraga o amor, mas não. É a nossa incapacidade que abre tréguas e pausas a essa forma de amar, como se abrem feridas e desânimos e desistências no corpo que tem a nossa alma mais antiga e mais genuína.
Como se torna outro o corpo do verão, quando somos arremessados para a desconhecida idade da privação, aí construindo novos pactos, novos desafios que estarão certamente a assegurar a felicidade futura, sobre as palavras futuras, sobre os sorrisos futuros, o que fará de nós, um dia, também um corpo de amor e depois de privação, a mudar verões, a ser em quase tudo o que se não toca, a ser em quase tudo uma espécie de desejo que arrastará consigo a saudade e a mais verdadeira felicidade que vem da serena língua do amor, assim a aprendamos, assim a soubermos ensinar.

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