A sala.

De todo o silêncio, o de hoje é uma sala, uma enorme sala, de cantos recatados, estáticos, com uma idade a esconder-se devagar. Tudo quieto. Tudo escondido. Entro com a insuportável sensação do medo e pergunto apenas com o pensamento. Pergunto por todos, por mim em idades muito distantes, em lugares muito distantes, em coisas e mais coisas que fazem parte da eterna arca que me acompanha e sobre a qual não consigo suportar mais do que três ou quatro frases que tenham em si o peso do passado e da saudade. Fico com a impressão da morte, sabendo muito bem que a morte, a nossa, não existe senão para os outros. Nunca fomos nós a morrer.
Abro as janelas da sala e desse silêncio. Recuo. Fecho-as novamente. Tapo-me com o que de mais abrigado possa ter, adormeço-me. Adormeço-me como quem foge e espero que do sono me surja algo que seja novo e me surpreenda.
Fico junto às paredes, porque as paredes dessa sala são as margens de todos os rios por onde passei e que conheci. Alguns cheguei a amá-los, mas não são esses que espero, nas margens desta sala, são outros, são os que ainda não conheci e não amei. Espero aqui esses rios, em forma de anjo, sem corpo, sem voz, sem materialidade, rios que tenham apenas uma direcção e nela uma possibilidade.
Adormeço-me como um viajante, sendo essa a mais nobre face que poderei ter para enfrentar a dúvida e, um dia, a eternidade.


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