As esculturas citadinas.

As esculturas citadinas, esses corpos distantes, anónimos, essa possibilidade de enredar uma qualquer coisa que se estenda pelo dia e que entre na memória de modo lento e suave, como quase tudo que tem direito a permanecer na memória.
As cidades têm-nas cada vez mais. Apenas me relaciono com as mais antigas, com as que já não interessam a quem é comum e só consegue viver num único tempo. As outras, as mais contemporâneas despertam-me demasiado para a hora presente e isso para mim é trabalho, não é deleite e muito menos liberdade.
No Porto, na avenida dos aliados, ao fundo, está uma escultura extraordinária de uma mulher nua em cima de uma coluna. As pombas, param imenso por lá. O seu corpo branco, despido, na mais cinzenta cidade que conheço, não me lembra mulher alguma, mas antes a infância que por ali vivi, uma infância a cinzento e branco, bem como as vezes que ali atravessei a rua em direcção a Sá da Bandeira, para ir tomar café com o avô ou com o tio Orlando, na Brasileira do Porto.
Lembra-me uma cidade conservadora e grande, muito diferente da minha, conservadora e pequena. Uma estátua de mulher que me traz o contraste com os homens aprumados, de jornal debaixo do braço, o «Janeiro» ou o «Comércio», sobretudo esses. Aqueles homens com um ar elegante que só se equiparavam na minha terra a uma, bem contada, dúzia e meia de cidadãos.
As esculturas com gente a povoarem na cidade as nossas sempre incompletas histórias, mesmo aquelas que tiveram um fim aparente há muitos anos, mesmo aquelas cujos protagonistas já só existem no nosso coração incendiado pelo tempo. Histórias incompletas pelo que ainda modificam, pelo que acrescentam, pelo infinito a que sempre votamos aquilo que guardámos, aquilo a que juramos pertencer, como só aontece nas juras de amor eterno, ou na infantil impressão de que ninguém morrerá, de que só as coisas más e feias desaparecem para sempre.


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