O QUE O APAGÃO ILUMINOU
Durante o apagão iluminaram-se nos nossos corações uma série de evidências que permaneciam escondidas ou escurecidas na perigosa normalidade dos dias.
A primeira delas é a noção de base. No tempo das rápidas e deslumbrantes comunicações quem nos salvou do pânico foi a velhinha telefonia, a amada rádio, acessível a praticamente todos, companhia e companheira de sempre a pleno tempo.
O meu pai partiu em 2008 e deve ter sido por essa data que colocou no pequeno rádio portátil as últimas pilhas. Voltámos a ele quando se nos apagou o mundo. Trocámos as baterias e ficámos a saber o que nos tocava em destino pelo transistor que ele usava diariamente à hora do duche para combater o silêncio e poder saber do mundo.
A segunda coisa que se iluminou em nós neste apagão foi a de que a rapidez do que é inovador e deste tempo ainda não consegue ser a base, o alicerce, não tem a solidez nem a permanência que nos segure na escuridão da ausência.
Uns segundos antes de se apagar a luz, lia a edição do Clarin, diário argentino que gosto de espreitar para saber de cultura por aquelas paragens. Uns segundos depois, estava só e sem sequer poder falar com os meus familiares.
Mas podia falar com os meus vizinhos, com as pessoas que passavam na minha rua. Os grandes supermercados fecharam por falta de comunicação e as pequenas mercearias de bairro continuaram abertas e disponíveis a vender hoje e a receber quando a luz voltasse e as máquinas de multibanco nos devolvessem o nosso dinheiro.
Iluminou-se neste apagão que a relação de confiança e a pertença são mesmo a nossa fundação mais certa.
Quanto à fragilidade do ser no tempo, terceira iluminação deste apagão, percebemos que, como sempre, estamos entregues ao que conseguimos proteger em nós mesmos e com aqueles que se dispõem a ajudar-nos. Neste território de sobrevivência somos um triângulo: o eu, o nós e a nossa transcendência. É nesse triângulo que emerge a força geradora do que nos faz permanecer e deixar marca. Porém o triângulo demora-se em si mesmo, testando-se. Quando tudo falha, conseguimos perceber a sua dimensão, a única riqueza que temos e que nos importa. Voltamos então ao que fomos capazes de sentir e de pensar, que é o valor mais escondido, porém mais importante, do que fomos capazes de fazer. Um acto, um objeto ou uma riqueza não serão muito mais do que o que cada um sentiu e pensou para que lhe pertencesse em sentido autoral, sendo essa pertença fundadora feita de gente e com gente.
Neste iluminar que do apagão emergiu, ganhámos a certeza da mudança dos tempos e de quão frágil ela é, uma vez que quando a eletricidade acaba, há uma sociedade que estanca e se desmorona por ter sido inventada a partir desta. Sendo que, ao contrário do que algum romantismo possa fazer crer, a sociedade que antes existiu já não estará lá para nos amparar e para que tudo possa voltar a ser como era.
Que tenham aquelas apagadas horas servido para que aprendêssemos um pouco mais sobre o que nos conta, a todo tempo, aquilo que nos é essencial e fundador.



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