Vindima
Não é o vinho,
é a vindima do tempo,
são as horas a passarem,
as décadas de estações
onde vimos crescer as palavras,
e a maneira de dizermos
o que quisemos dizer a vida inteira.
São as ramadas
a desenharem a sombra
por que esperamos,
até que o verão
voltasse como se fosse gente
e nos inquietasse
como se um amor fosse.
É o colorir das uvas, o pintor,
porque as uvas são uma espécie de obra
a duas mãos entre Deus e os Homens.
É o aroma das americanas,
essas que sempre serão
uma saudade infinita.
Se pudesse levar um único aroma da vida
seria esse, o dessas uvas.
Mas, o pior da vida
é que nos morrem os odores
como nos morrem as pessoas
e as regras da morte são iguais
às regras da vida: não se conhecem
e não obedecem a amores nem a saudades.
Não é o vinho,
é o gesto, é o querer salvarmo-nos
uns aos outros nessas colheitas,
é o negar o fim e o avistar o fim,
a única beleza
que nos faz sentido,
que nos dá sentido.




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