«Tiempo de cruzar el umbral» - a poesia de Juan Carlos Martín Cobano

 


Há tempos que me detenho sobre o mais recente livro de Juan Carlos Martín Cobano, poeta de origem andaluza, intitulado «Tiempo de cruzar el umbral». É um texto evocativo e, simultaneamente, comprometido. Evocam-se textos sagrados e personagens do universo cristão, como São João da Cruz e Santa Teresa de Jesus, mas também poetas de geografias diferenciadas.

Na atitude poética da evocação, o autor encontra aí portas de entrada para imaginários que explora num registo de singeleza inteligente, apoderando-se deles, devolvendo-os a quem lê com a marca da sua experiência e identidade autoral. É na incursão evocativa que Martín Cobano desvenda o lado comprometido da obra. Comprometido no melhor dos sentidos, não apenas como expressão de um território ideológico ou de fé, mas sobretudo pela demonstração de como a escrita poética cria e proporciona a quem lê a experiência sobre uma imaterialidade transformadora e profundamente reveladora do ímpeto e do sentido de uma certa forma de se ser Humanidade. A liberdade que aqui nos conduz ao intangível é reveladora de dimensões do nosso mundo e do nosso tempo que, pela via literária, terá como fim último a mudança, uma vez que é na forma como se olha, sente e pensa o mundo que está a origem da transformação das coisas, dos lugares e das gentes.

Neste espírito de liberdade, somos desafiados a atravessar o limiar, o limiar do óbvio, do imediatismo, do medo, da esperança e do tempo. Há nesta obra uma sã inquietação pela urgência dessa travessia, fazendo-a em comunhão e partilha, de modo a que se seja com o outro a invenção de uma nova realidade, fruto da mágica interação que gera, que motiva e que liberta. No poema em torno de Santa Teresa de Jesus, sentimo-lo:  

«(…) Quiero correr y ya había llegado,/ exprimo las uñas, cancelo mis párpados/ y no hay otros soles, ya era de día./ Hoy rompo ascensores y quemo escaleras./ Juntos dinamitemos los muros, castillos, paredes/ y descabecemos bedeles de paja. /Está clara la aurora, ahora lo veo,/ y van dos milenios, /a tomar viento las velas, candiles, linternas./ Comamos, bebamos,/ la mesa está puesta, /hay pan, hay sangre, hay agua, /tú pon los cabellos, yo pongo el perfume,/ miremos al sol, miremos al suelo,/ y recuerda:/ tenemos visita.»

A herança e o tesouro que traduzem a reinvenção do Tempo é uma presença em forma de pergunta, de experiência e de memória que percorre o livro. No poema Tiempo, onde se evoca o poeta português António Salvado, escreve o autor sobre o «não-tempo» e sobre a forma de o habitar e de o Ser.

«(…)Sabe usted bien, don António,/ que la alabanza tiene su casa en el no tiempo,/ que la eternidad es un terrón de azúcar/ buscando dónde diluirse. //No es tiempo para pensar,/ es tiempo para alabar,/ para echar a volar aves veloces/ que relampagueen a la vista de pocos. //No es tiempo de cometas ni banderolas,/ es tiempo de cruzar el umbral,/ de habitar en un recuerdo extinto/ de relojes y agendas.// En la casa del no tiempo/ no hay tiempo/ para pensar/ hay espácio/ para cantar. »

O poema «Reivindico el fracaso» é um hino. Um hino de combate ao vazio, ao pré-feito, ao pré-concebido, à desumanização e à distância militante do que é a essência não subjugada à imanência irrefletida.

«(…)Aborrezco las medallas,/ la miseria de las palmaditas en la espalda,/ los besos con aliento de plata,/ los treinta apretones de manos, / el oro sin mirra, el incienso sin llama./ Líbranos, Señor, de los fantasmas.(…) Reivindico al que conoce/ el valor de darse,/ de vaciarse,/
vaciarse/vaciarse/ vaciarse/ hasta vaciar su tumba.// Aunque no entiendo nada./ Sumérgeme,
Señor, en tu misterio.»

Este livro de Juan Carlos Martín Cobano, que conheci em Castelo Branco durante o ROIZ, Encontro internacional de poetas ibero-americanos, tem a sobriedade e a profundidade limpa que se exige a um texto que aspira à universalidade.

«Tiempo de cruzar el umbral» tem a forma conseguida de nos impelir a atravessar esse limiar onde nos encontraremos outros até ao infinito do que possamos Ser em nós mesmos e com os que, de forma sua, nos inventam e infinitam as nossas vidas.

Fafe, 13 de março de 2021






 


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