Regresso a Henri de Toulouse-Lautrec
Esta noite, veio-me à memória o quadro «La Toilette» de Henri de Toulouse-Lautrec. O autor está entre os meus pintores favoritos. Há um ano, estive em Albi, num Museu que lhe é dedicado. Fiz a viagem por ele, embora a pequena cidade também valha uma visita por si mesma e pela arquitetura civil e religiosa de várias épocas.
Uma das partes que mais admiro na obra de Lautrec é o comprometimento que consegue entre vida e obra. Não que eu defenda um auto-biografismo das obras, mas antes porque defendo que uma obra para ser universal tem de ser verdadeira em quem a vê. Daí que esse compromisso seja de todo uma mais valia.
No meu último romance, há uma personagem que é pintor e que refere:
«(...)- Se não viver falta-me a razão. Não
compreendo que se possa ter uma arte sem que nos permitamos viver para poder
contar, para nos podermos inquietar, para as perguntas, para os desaires e para
as esperanças. Conheço pintores que só pintam a pintura. Isso para mim vale
muito pouco. A arte tem que continuar a ser um manifesto, mesmo que só pela via
do belo. A visão comprometida do belo tem que ser fruto de uma existência, de
uma tensão qualquer. Por isso, vivo antes de pintar, ou pinto porque esse é o
meu pacto de dignidade com o que a vida me proporciona.»
Gosto muito do Lautrec pela narrativa e pelo drama existencial das suas personagens. Há, na sua pintura, uma intimidade absoluta e secreta, tão secreta que cada um a encontra à sua maneira. E isso é tudo que se pode exigir a uma obra, o mais belo secretismo do «eu» pelo que sabe do coração alheio e do não vivido, embora experimentado pela vivencialidade da arte.



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