O que inexiste.
É esta a direção do olhar. Tenho na memória um conjunto de paisagens e saio para nelas recolher as coisas perdidas, as frases inacabadas, o interior das casas desvividas, o intimismo da pele, a quentura do beijo e a lonjura desejada do coração.
Tenho uma memória que é um bicho à solta pelo que o mundo estará para ser. Uma memória é um corpo onde sepultámos as mais incompreendidas moradas, incendiando os seus abismos no que rente nos sufoca e no que distantemente nos conta.
Havemos de parar um dia para, recordando, sermos o que nunca alcançámos.
O que fomos, o que todos sabem que fomos, é a nossa morte. Ninguém vive no que já viveu. Só esse horizonte se assemelha à ideia de Deus e à sua capacidade criadora: viver no que sabemos da incompletude e ser, ser sempre, para que seja essa a mais deslumbrante imagem de se ir morrendo para nascer do que inexiste.



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