Dar e receber.
Uma tarde, em Zagreb, parei para um café,à espera de mais mundo. Esse esperar é sempre circunscrito à necessidade de colocar mais mundo no que é nosso desde sempre, no que é construído por nós na nossa escala de dentro. Ou seja: o mundo que procuramos por esse mundo fora não é mais do que um confronto ou de uma confirmação do mundo e da vida que temos levantado até ao nosso presente. Sim. Levantado porque só vale mesmo o mundo que se levanta e não o que nos cai por herança ou por infortúnio.
Nessa tarde, em Zagreb, andei a fazer balanços. Balanços de missão. Pensamentos sobre o que estava cumprido na rota, na missão que ainda me faz sair de casa, às vezes de mim, às vezes de quase tudo, e perguntar, perguntar com muita verdade onde está melhor o nosso Tempo. Lembro-me de ter sorrido, ao pensar isto. E esse sorriso, por ser genuíno, foi o prémio. Continua a ser o prémio. O silêncio dos sorrisos que cada um levanta é a maior das recompensas. Já os orientais sabiam que quando assim acontece, podemos reconhecer que nunca se perdeu a dignidade, por termos dado o nosso melhor.
Dar. Não receber. O receber é uma incerteza, uma interessante incerteza, uma apaixonante incerteza que faz parte da ornamentação, da narrativa, da textura da nossa missão junto do nosso contexto.
O receber não chega, desponta. Ninguém dá nada a ninguém verdadeiramente. Os humanos desenvolvem capacidades magníficas de conseguirem saber receber o que os outros inscreveram na sua missão dar. E quando assim acontece, acontece a paz, a justiça, o amor, a liberdade. Acontece o melhor do mundo.
Ou seja: se não soubermos avaliar com justiça e inteligência o que nos dão, não sabemos receber. Há vezes em que nos é entregue material ou imaterialmente algo e não nos sabemos receptores dessa dádiva. Por outro lado, a dádiva só por si mesma também não existe. Ela parte de uma missão. Uma missão é algo que está para lá da solidão de cada indivíduo, tendo em conta que o êxito desta reside na abertura do receptor para a saber receber, nem que seja de forma imaginária, nem que seja apenas fruto de um certo desejo inconcretizável.
Quando o dar e o receber se encontram temos mundo, temos gente no seu pleno, ainda que nos gestos mais simples. Daí que os balanços da nossa missão passem por essas paragens onde se chega a um certo silêncio que questiona o que demos, o que soubemos receber e que mundo ficou depois de tudo.
Quando terminava o meu café em Zagreb, na praça da Ópera, tinha uma certeza: se o mundo me acabasse, eu não acabaria ao mesmo tempo. E isso é um bom princípio, é uma excelente notícia para um fim de dia, já agora, de missão. É algo, aliás, que, felizmente, acontece com regularidade a grande parte das pessoas. E essa foi a segunda constatação, a segunda boa notícia.



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