José Miguel Dias - o pianista.
O tempo é dos mais mágicos elementos da nossa existência. Há dias, assisti no Teatro-Cinema de Fafe ao regresso de José Miguel Dias aos palcos da nossa terra. A primeira sensação foi a de quem ia apreciar o talento de um artista que conheci quando era ele ainda criança. Seria, portanto, uma audição condicionada ao desejo de que fôssemos surpreendidos, de que público e artista tivessem uma noite agradável, reconhecendo, numa corajosa escolha de vida que ele fez, um ter valido a pena. Ou seja, a primeira coisa que efectivamente procurei quando as luzes se apagaram foi uma certa segurança que viesse da sua capacidade de nos confrontar com a sua leitura das partituras e nos arrancasse um aplauso de satisfação no final.
Mas não saiu assim o concerto. Nem saiu assim o José Miguel Dias. No final da primeira peça, aquele pianista foi perdendo o nome e a referência e a idade. E foi a sua forma de existir ao piano que tomou conta daqueles momentos, entregando de forma intensa e inquieta a música, oferecendo-nos um concerto onde, de repente, estávamos dentro do que era interpretado e interpretando, fomos sabendo de nós no que ouvíamos e naquilo que íamos construindo ao longo da audição.
Por assim ser, já pouco importava que não houvesse uma única partitura à sua frente e que lhe saíssem todas as notas, nota a nota, como se fossem suas. Já pouco importava que fosse de Fafe e que me lembrasse dele quando era criança e que lhe conhecesse e estimasse a família. De repente, tudo isso, que é normalmente importante, perdeu importância por começar a ter a certeza que o uso que ele fez da sua liberdade teve, como resultado, o partilhar a arte na sua forma mais limpa com os outros, fossem os outros os de fora, os da sua terra, os seus amigos ou a sua família.
Naquela noite descobri um pianista, um pianista que teve tanto a dizer na forma como interpretou e que o fez maduramente durante todo o serão. Efectivamente, o José Miguel Dias que conheci nessa noite não o conhecia de parte nenhuma. Mas creio que conseguiu criar uma intimidade muito intensa com o seu público, a grande intimidade que só a arte consegue, aquela linguagem desprovida de tempo, aquela forma de chegar ao inacessível que há nos outros, aquela grandeza que os artistas percebem que possuem de cada vez que alguém é tocado pela arte e transforma aquilo que ouve no que já viveu ou está para viver, mas que sempre transforma, e que usa, neste caso escutando, neste caso usufruindo da sua sensibilidade e da sua mestria ao piano quando a projecta na mais limpa liberdade de cada um de nós.
Um concerto que fica na memória. Uma descoberta. Uma demorada alegria. No regresso a casa, comentava com a minha mulher o gosto que o Ruy Monte teria se ali estivesse, o gosto que ele teria primeiro pela ousadia que o José Miguel Dias teve em resolver arriscar tudo por uma carreira, mas, sobretudo, pela inequívoca forma como ele nos contou o que conseguiu fazer com a sua liberdade, com a sua ousadia, com o seu talento. Grandes notícias. Um longo bravo!


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