O outono que vier
Saímos de casa para receber o outono. As palavras eram cada vez mais lentas como se tentássemos hibernar a espontânea existência de quando é verão. Coleccionávamos a cidade, cada pedaço, cada sonoridade, cada pessoa, mesmo aquelas que já havíamos coleccionado em outonos anteriores.
Sabíamos que estava para chegar o frio e o mais terno confronto com a intimidade. Sabíamos que ninguém nos consegue roubar o coração por esta altura. E sentamo-nos. Sentamo-nos como se um longo filme passasse pela nossa vida e não resistisse a contar o quanto já vivemos, mesmo sendo futuro o outono.
Neste tempo, diz-nos então o silêncio que o devir é uma espécie de paixão entre as idades, é um doce desconhecimento, uma equação intraduzível, um resultado que, mesmo pondo-nos mais próximo do fim, nos distancia e nos exila nesse lugar futuro com vista para o que é de sempre e nos ampara e reinventa.



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