Sunday, January 01, 2012

Vamos, coração!

Foto PMM - Varsóvia
Fomos andando, coração. Fomos fazendo estrada e tempo. Fazendo noite e dia. Fazendo fome e sede. O caminho, coração, é uma frase sobre a expressão de um rosto que só os outros conheceram porque o viram, porque lhe perguntaram, porque não era o deles, porque era o nosso, o nosso rosto e a nossa frase e o velho, o nosso tão velho caminho, coração.
Hoje, estamos a olhar para estrada e a tentar adivinhar o que é que houve para trás, o que é que existiu de facto, o que não foi engolido pelo esquecimento. Começamos, então, a contar. A contar o tempo que resta ao que não esquecemos, ao que significa. Agarramos-lhe o pulso, contamos os batimentos, depois damos as mãos.Estamos juntos, coração. Anoitece devagarinho. Já sabes que não morreremos assim que parares, mas quero-te dizer que quando parares começaremos a morrer. Mas hoje não é o dia.
Anda um pouco mais. Olha a estrada. Ainda há tanta estranheza, coração. Vamos, abriga-te comigo nesta casa e espera que a tempestade passe e quando passar, vais ver, não seremos os mesmos. Talvez nos estejamos a despedir de alguma coisa. Ainda avistamos o amor, a cidade, os amigos, as árvores, os tantos deuses que já sentimos. Ainda avistamos, coração.
Mas cansamo-nos por vezes e, outras, até parece que o fim está próximo. Mas faz parte. O cansaço é do corpo a melhor prova de que o espírito existe.
Pronto. Aí estamos de novo na estrada, coração. Aí estamos e são sempre tão belos os primeiros passos que se não fosse por ti poderia até chorar ao senti-los, mas lembro-me bem, coração, que um dia me  disseste enquanto o fazia:
- Chora apenas se tocares a miséria extrema, se não te restar mais nenhuma palavra, até lá, não chores, escreve.

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