Tuesday, December 27, 2011

A idade dos sonhos

 Foto PMM - Fátima

Tornar ao espaço onde brincava durante as tardes
e reinventar a íntima geometria dos objectos,
compará-los com o corpo. Permitir essa invasão
e entender o sonho.
Um sonho em criança é uma construção
do que se toca,do que se intui e da privação.
Na idade adulta é o mesmo,
apenas cresce a duvidosa necessidade de julgar
e com isso o entristecer.

Monday, December 26, 2011

Adeus

Foto PMM - Gaia
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Olha pela janela e conta os pássaros, as árvores da paisagem, as crianças, os velhos e volta para ti como se te esperasse o paraíso no curso dessa viagem. Lembra-te de mim e do que te não disse. Faz disso a nossa melhor história.
Um dia, apanhámos o comboio numa estação no Sul de Itália. Houve uma mulher muito bela que me pediu lume enquanto tu me pedias para te dizer se alguma vez te trocaria. Lembro-me de te ter respondido que nunca troquei nada nem ninguém. Que apenas vou morrendo frequentemente e que, como tal, há pessoas e lugares que me perdem. Lembro-me que me abraçaste cheia de medo, não que eu morresse, mas que me pudesses perder. Então, antes de entrarmos para o comboio, perguntei-te se querias fazer a viagem comigo, mesmo correndo o risco de eu não ser eterno. Disseste-me, enquanto se te embaciavam os olhos: 
- Todos havemos de morrer um dia, pelo menos uma vez, e nem por isso deixamos de viver.
O comboio partiu ao final da tarde. Uma tarde quente de Setembro. Estávamos no Sul de Itália e os teus olhos morriam nos meus de tão belos, de tão irrepetíveis. Percebiam que o amor ē uma ciência, é uma imensa sabedoria. Saber que se nasce para morrer um dia, a cada dia, e que mesmo assim, e que só assim, é possível construir a beleza e seguir. Nem o amor nem a beleza se conquistam à chegada, só quando partem se elevam. E, quando  partem, ficam e contam o que será.
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Há um planeta inteiro para nos morrer no coração e hoje ē o dia. Apanha esse comboio e deixa-me onde ainda não chegou o coração. Nem o teu, nem o meu. É aí que quero morrer. Por ser aí essa pátria de esperança, muito virgem, muito virgem de despedidas de todos os outros lugares por onde passámos e não paramos, mas que nos faltam e, por faltarem, significam.
Apanha comigo esse comboio e deixa-me nessa viagem. Se eu não chegar nunca, não me procures, eu sou a tua viagem. Se me não vires esta tarde não faz mal, estou no sul de Itália numa velha estação a dizer-te com os olhos embaciados que o amor não se explica e que por isso te posso morrer. Estou nessa estação à espera que partas e que entendas que o amor também é uma despedida, uma longa e bela despedida.
Apanha comigo esse comboio e olha pela janela. Podes acenar assim que o comboio começar o seu curso e vê, vê com os olhos molhados como ficamos nessa estação, julgando-nos eternos. Vê como partimos, como se está sempre a partir. Podes acenar. Podes dizer uma ou duas palavras sobre essa parte de nós que ficou e que morrerá por ali.
Chega-te a mim. Está a arrefecer nesta carruagem. E o futuro, o futuro é sempre um lugar frio. Assim que chegarmos, estaremos a morrer novamente, mas é isso o amor, a sabedoria do amor. Estaremos a morrer e tu a perguntares se eu ficarei e eu a dizer que se fica muito quando se morre.
Assim que chegarmos, vou dizer que nunca te deixarei. Que morro muitas vezes e que, por  isso, há pessoas e lugares que me perdem.  Apanha comigo esse comboio. Não deixes de dizer adeus, pois só dizemos adeus ao que queremos levar para sempre.

Sunday, December 25, 2011

Escrever a viagem

 Foto PMM - Coimbra
E, de súbito, falta-me muito um deus que ajude a perceber como se pode durar mais sobre um tempo que só na aparência é idêntico para todos. O tempo é o que temos de mais relativo. O tempo é uma invenção da felicidade e da tristeza. Move-se e consome-se entre estes dois pólos, mais depressa ou mais devagar consoante estes dois estados. A duração das vidas é esta viagem, magnífica, intensa, cheia de dimensões onde nos demoramos. Dimensões que säo portos de muitos abrigos, abrigos de muitas tempestades e bonanças.
Um dia, estava sentado num desses portos de interiores viagens e recuei uns séculos até à velha Flandres e era então um mercador que procurava duas coisas: alguém a quem pudesse vender a minha mercadoria e, ao mesmo tempo, conseguir saber o destino dessas coisas que vendia na vida e no sentimento daqueles que as compravam. Era um mercador em busca de conhecer um bocado mais da felicidade que envolve o mundo. Uma tarde, já quase noite, em Antuérpia, uma rapariga contou-me que o seu noivo apaixonou-se por ela quando a viu pentear-se em frente ao espelho que eu lhe vendera e que, desde essa altura, aquele espelho tornou-se um confidente que não dispensa e a quem quase tudo pergunta.
Desde essa tarde que não mais esqueci o espelho que vendi àquela mulher e nunca mais deixei de perguntar a mim mesmo que histórias continuaria aquele objecto a contar, que amores e desamores, que angustias e paixões?  O que teria aquele espelho trazido para o pulsar do mundo?
Saí do Porto de Antuérpia e voltei a este tempo e a este modo, sem grandes diferenças encontrar entre o que escrevo e o mercador que fui naquele porto na Flandres, no centro da memória e do desejo. Escrevo porque não consigo deixar de acrescentar objectos ao coração das pessoas de todos os tempos, criar esse objecto-palavra e soltá-lo para sempre sobre outras vidas que o hão-de guardar para si, mudando cada um e com isso mudando o pulsar do mundo. Não escrevo por muito mais.

Que ningém falte.


O relógio de sala a dar as horas. A compassar as horas. As horas não se dão, conquistam-se. O pêndulo é uma espécie de coração da casa. Desde a morte do avô que ninguém o acertou. Sempre que nos esquecemos de dar corda, aguardamos até ao minuto exacto onde parou e recomeçamos. É como se quiséssemos prender o tempo, uma vez que não podemos mais prender as pessoas. Ao menos as horas. As horas são as mesmas, são as do seu tempo, do tempo em que éramos todos vivos da mesma maneira. O relógio da sala é um coração secreto da família. Bate sem as leis da vida. Há um de nós que se encarrega de o continuar assim que outro para. E quando se para nasce-se dum outro jeito.
Ontem, fizemos o pinheiro. É interessante como por cá se usa o termo fazer o pinheiro. Na verdade somos nós que o fazemos. O pinheiro de Natal não é obra da natureza mas antes uma obra do coração. Do coração mais alegre ou mais ferido, mais novo ou mais cansado. É uma enorme imagem do tempo. Diria até que é uma metáfora. A vida toda é uma metáfora. Raramente fazemos aquilo que objectivamente sugerem os nossos gestos. E o pinheiro de Natal não é excepção. O pinheiro é tudo menos um só pinheiro. O pinheiro é um monumento: um monumento ao que já se viveu por estas alturas, um monumento às nossas companhias, ao nosso Deus. Mesmo quem o não tem, arranja um Deus por esta altura para partilhar. E nisso se vê a generosidade humana: até um Deus o Homem é capaz de arranjar só para não estar só, nem deixar só os que o rodeiam neste simbolismo. O pinheiro nasce-nos todos os anos, como nascem as flores e os frutos, como nascem as folhas que caem todos os outonos.
Chegam-me as fotos. Há uma caixa cheia de retratos antigos. Retratos cheios de vozes, cheios de gestos, cheios de toques. A caixa das fotografias é um exército escondido, pronto a não nos deixar cair em momento algum. Mudamos a idade a olhar as fotos, mudamos a cor dos olhos, do cabelo, mudamos a voz. Somos até incapazes de falar, apenas para que se não regresse ao corpo e à forma que vamos tendo por estes dias presentes.
Os dias presentes são uma coisa muito difícil de perceber. Porque ainda não são passado, mas hão-de ser e ainda não são futuro mas hão-de ser. Quando regressamos aos retratos, regressamos a uma estranheza intima. Estranhamos este enigma do tempo:  não estarmos na mesma dimensão dos retratos, mas ao mesmo tempo conhecermos cada silaba desse linguajar que têm os que nas fotos ainda falam. Mesmo que esses sejamos nós mesmos a nascer outra vez, noutras idades.
Quando era pequeno a cidade não existia. Mas existia uma Vila que não cabe no meu coração, ainda hoje. Uma Vila mágica, com uma luz mágica, uma voz mágica, com um corpo que sempre confundi com o meu corpo. As ruas da Vila eram como se fossem uma parte de mim, um rasto que desaparecia assim que os passos se dirigiam para outros lugares. Por esta altura, ia muito com a avó à Igreja Matriz , rezar pelos outros, rezar pelo mundo.
Era fantástico explicar a uma criança a possibilidade de rezar pelo mundo. No tempo da Vila, não viajávamos mas éramos capazes de ter a noção de que havia mais mundo, um mundo muito maior e um mundo onde eram possíveis e eficazes as orações que por ele fazíamos, sobretudo nesta quadra. Rezar pelo mundo. Na mais bela pequenez da Vila e do coração da infância.
E na Matriz, nasceu-me o primeiro Deus. A Matriz é um lugar verdadeiramente divino. A Matriz é como se fosse a minha casa. Imagino-me exilado e a regressar um dia com o coração nas mãos, tendo a absoluta certeza de que seria a Matriz o primeiro sítio onde parava para estar só e agradecer o regresso. Não é uma questão de filiação religiosa. É uma questão de verdade. De estagnação boa do tempo. Na Igreja Matriz nasceu-me o primeiro Deus e nasceu-me um sítio onde percebi que poderiam existir sítios acima dos Homens.
A natureza também está acima dos Homens. Vivemos cercados de montes e sobre esses montes começámos desde cedo a construir a ideia de desafio, de distância, de horizonte. Os montes, para quem vive no vale, têm esse sentido. Os montes de onde trazíamos as pinhas para a lareira, os montes onde escondíamos os animais que lá não existiam, mas que existiam apenas porque o nosso medo ou a nossa fantasia assim o ditavam. E pronto, a vida é mesmo isso, há uma aparência de cientificidade em tudo, mas na realidade o mundo que nos comanda é o que não existe, é o que se deseja e o que se teme. O que existe é apenas instrumental. E mesmo o que é tangível e comprovável pelas leis da Física, nasce para fazer nascer uma série de outras coisas que agigantam o seu lado gerador de sentidos e infinitas leituras, sendo contudo a mesma e única coisa.
A nossa rua de sempre arrefeceu e está tão bonita. Tem muitas idades esta rua. Em cada pedra da calçada reconheço o meu corpo, as fugas, as chegadas, os medos, os arranhões de quando corria com as outras crianças que já cá moraram e que já cá não estão na sua maioria. Fui ficando ao longo dos anos e vendo crescer a cada dia um pedaço diferente desse espaço como se fossem flores, flores renovadas de uma jarra que se tem no mais nobre dos aposentos da casa ou no mais íntimo. A nossa rua, amo-a tanto. A maior violência que o destino me poderá trazer será o de não morrer aqui, o de partir com a certeza de não regressar. Não sei como me poderei despedir da rua, ou de me despedir da ideia de não ver nada de novo a acontecer sobre ela, ou ainda pior: saber que vai acontecer muita coisa e eu não estar.
Um dia recebi uma bicicleta pelo Natal e decidi que partiria todos os dias. A minha bicicleta era um invento de liberdade. E, nesse ano, o Natal inventou-me a liberdade. Mas uma bicicleta é também uma parte do corpo e uma parte do sonho. A bicicleta de todas as partidas, do vento a dar-me na face quando descia para a aldeia onde o avô tinha a fábrica, a muita velocidade, a uma velocidade em segredo. A bicicleta a fazer com que tudo crescesse em mim. Tudo entre o medo e a astúcia, entre o deslumbramento e a angústia, entre o ficar e o partir.
A vida é um ritmar de partidas e chegadas. Partir não fisicamente, mas partir pelo pensamento, com quase tudo a ser possível, com quase tudo a ser uma funda inquietação do mundo. Partir pelos filmes, pelos primeiros que assistia nas matinés do velho cinema  e que rendiam todo o mês, em busca de extraordinárias personagens, de lugares longínquos, em busca de ter o longe perto. Um dos maiores atributos da arte, é o de fazer rebentar distâncias, tornando o longe mais perto mas também tornando o perto muito longe, o que é fascinante.
Aprendi, então, a medir distâncias, o espaço também não é o que aparenta. Ainda me lembro dos teus olhos e dos meus em frente ao Flore, em Paris, sem que lá estivéssemos plenamente. Estávamos era na nossa juventude, no que sabíamos dos artistas que para lá fugiam e dessa parte de nós que também queria ter fugido. Estávamos a falar ambos com os adolescentes que fomos e que nunca estiveram em Paris. Estávamos ali e tudo não era mais do que o que queríamos daquele lugar. Uma tarde, em Zagreb, andei pelas ruas ininterruptamente a rever as minhas idades e dei comigo a medir distâncias entre aqueles sítios e a nossa terra. Na realidade, sai-se muito pouco. É tão raro sair da nossa rua. E é tão bom que assim seja. Arrefeceu na nossa rua. É Natal. Faz sentido que assim seja.
Anoiteceu já. Daqui a nada chegam todos para a ceia. O gato anda inquieto, roça-se mais nas minhas pernas, do que no resto do ano. Parece pressentir que nesta altura a ternura é mais dividida. Os gatos detestam dividir emoções. Eu também sou em parte assim, daí me entender tão bem com os gatos. Mas, hoje é uma excepção, sempre foi, sempre há-de ser.  O gato está de patas para o ar. E isso é o pior que pode acontecer a um bicho daquela idade e com personalidade felina. Um gato de patas para o ar a fazer habilidades é o mesmo que um quarentão a dançar música moderna em frente a uma rapariga de vinte. É o extremo da carência e o limite da dignidade. Vou ter que lhe assegurar que ninguém o substituirá na cadeia emocional aqui de casa. Afinal, a quadra ensina-nos a não esquecer e o velho Félix nunca me faltou uma só vez à sobriedade que a casa tem de ter o resto do ano.
A mesa está posta desde as seis da tarde. Foi sempre assim. Já no tempo do avô assim era. Começamos cedo a celebrar, a ter cuidados, a trabalhar para que,de cada vez, se acrescente ao inesquecível. A mesa ainda está vazia, embora esteja  cheia. Está cheia de memórias. Já passei pelas cadeiras quase todas. Desde pequeno que a mobília da sala é a mesma. À medida que as fases da vida foram passando, fui mudando de lugar. O ciclo termina no lugar que hoje ocupo. Estou à cabeceira, na cadeira que era do avô e depois do meu pai. Este lugar na noite de Natal é um trono. Tenho-os em cada gesto. Tenho-os como se nunca pudesse desmerecer o lugar. A vida é assim mesmo, dizem os Homens, demonstram os deuses.
Não se pode saber, mas desta janela que dá para a rua, só se vê a antiga Vila. Nada mais do que isso. Estamos todos, estamos sempre. E ainda se nasce muito por cá. O Natal tem na festa inúmeros silêncios. Magnânimos todos eles. Silêncios de viagens ininterruptas, silêncios de aconchegos infinitos. Silêncios de onde despontam as vozes mais antigas, mas também as vozes que hão-de vir.
Esta noite, é uma síntese. Uma magnifica síntese onde nos atravessamos pelas margens do mais belo, do mais justo e do mais terno.
Estão quase todos a chegar. Arrefeceu muito lá fora. A Vila é o lugar mais bonito do mundo. O gato Félix recuperou a dignidade e enrolou-se a dormitar junto à minha cadeira. Vou abrir o vinho e esperar que ninguém falte, que ninguém nos falte esta noite ao coração. Feliz Natal.

Saturday, December 17, 2011

Cesária Évora



A voz é um continente. A voz é um país, porque os países
são o que sabem e o que sentem as suas gentes.
Que impossibilidade esta estranheza!
Que música mais eterna envolve o olhar e amarra o peito!

Haverá continuamente um outro verão,
onde não acaba o testemunho. Haverá uma outra noite
e alguém que dentro há-de sentir esse sentido e seguir com ele.

E há também uma certeza: nunca se morre no caminho se caminho houve.

Esta noite tenho um verão no coração, uma velha árvore e um mar.
E uma ilha que é sôdade e que hoje chora para que não pare nunca de cantar.

Pátria minha.

Foto PMM - Porto
Alcançar a idade e ser um rio.
Ter a imagem vaga do vento, a imagem vaga do frio.
Ter das estações uma breve passagem,
um certo estar e partir continuados.

Alcançar a idade e não ser de lado algum,
senão da pátria que envolve o coração.
E ter aí um pais sem nome mas que bate 
assim que a avista, a essa pátria
tão cheia de silêncios e livre no olhar
sem que nas mãos nos traga rios,
paisagens ou pessoas,
mas um pássaro que não existe e desvanece,
não para de nós se ausentar
mas porque a uma terra não se conhece
melhor ofício do que aos seus ensinar a voar.

Monday, December 12, 2011

O Rádio do Avô

 Foto PMM - Fafe
Antes da revolução de Abril, a BBC de Londres transmitia em língua portuguesa todos os dias, e era a forma que tínhamos para saber o que se passava no mundo sem o crivo da ditadura. O avô ouvia religiosamente esse serviço noticioso e, a maior parte das vezes, eu também ouvia. Ainda conservo no meu escritório esse rádio. Contudo, eu era pequeno e não me lembro de muito, a não ser do aborrecimento que constituía ouvir as notícias em tom enfadonhamente institucional da BBC e o de não escutar comentários sobre o que se noticiava por parte do avô. Passados estes anos, pergunto-me sobre o que estaria por detrás daquele silêncio. Pergunto-me pelo preço que teria aquele silêncio. A inteligência do silencio, o medo do silêncio, a guerra e a paz que aquele silêncio guardava. Lembro-me disto porque o meu pai não ouvia um noticiário sem que comentasse no final e sem que a seguir não ameaçasse de que tal seria motivo de conversa no Club Fafense, um sítio com uma mística muito parecida à do café do Rick, em Casabalanca, onde se reuniam resistentes e situacionistas, equilibrando-se numa estranha mas eficiente convivialidade. No Club Fafense não entravam mulheres. Quando era preciso chamar o meu pai, era eu quem lá ia. E do alto da minha educação dos quatro anos, entrava como deve entrar um cavalheiro, saudava os presentes com um habitual e muito apreciado: boa noite meus senhores. Procurava o meu pai e perguntava-lhe se queria vir passear com a D. Ângela Medon e o Dr João na Arcada, nas noites de verão da Vila. Nesse tempo, havia um cheiro a cravos amarelos e a umas flores lilases que todos os anos a Câmara mandava colocar nos canteiros. Às vezes o meu pai demorava-se um pouco mais no clube a jogar bilhar. O Teixeira e Castro, jornalista e escritor, dizia que o meu pai tinha sido, senão o melhor, um dos melhores jogadores de bilhar que Fafe conhecera. Lembro-me de um certo desprezo que ele tinha pelo snooker, achava que o bilhar e o jogo de tabelas é que demonstravam perícia e estratégia, que o snooker não passava de entretimento para quem se limitava a meter bolas sem grande pensamento. O bilhar do Club era um bilhar normal, mas durante muito tempo foi um poço de enigmas para mim, pois comecei a passar por lá, sem que tivesse idade e altura suficientes para conseguir ver o jogo. Punha-me em bicos de pés para conseguir espreitar as jogadas. Depois da revolução meu pai deixou de ir e eu também nunca mais lá tornei.
O Club reabriu este ano com novas pessoas e uma filosofia nova. Chamou a si muitas organizações locais para dar vida ao espaço que foi restaurado. Entendo que é uma boa opção, sem que isso apague a memória dessa tal mística de um clube de homens que se equilibravam, pesem as diferenças e os níveis de combatividade a que cada um se votava.
Volto à memória da BBC de Londres, à memória de a ouvir na casa do Largo, à expressão serena do avô, a essa riqueza de o ter assim, de ainda o amar assim, de ainda me fazer falta dessa maneira, de me doer a Vila que já não existe, o Largo,e as pessoas que lá moravam e que já partiram quase todas. Sei que é a lei do tempo, mas também é dessa mesma lei que se sinta esta saudade e que, face a ela, se sorria em vez de entristecer, porque só se morre de facto quando se esquece, o que não será o caso.

Sunday, December 11, 2011

O universo de Telma Mota

Foto PMM - Fafe
Telma Mota realizou a sua primeira exposição individual na Galeria da Casa Municipal de Cultura depois de ter passado por várias mostras de criadores nacionais e ter já peças suas em vários países. Empreender pela arte tem sido o seu rumo e a sua luta nos últimos tempos. A Telma acredita e sabe que um artista antes de depender dos outros depende de si e das suas decisões, no que faz, por que faz e como o faz. Um artista tem que criar um universo e ela começou a criar o seu. A seguir esse universo é um monstro e uma criança ao mesmo tempo. É um incêndio e um manhã clara. Uma canção e um silêncio. E é preciso saber lidar com ele. Tão belo e tão de dentro. E,por assim ser, tão inquietante. Às vezes, tantas vezes, um abismo, um quase fim. Outras, tantas outras, a única eternidade a que nos dispomos.
Quando a fui ver, fiquei com uma peça sua no coração: chama-se fado. Uns brincos que simbolizam a forma como ela sente o fado. Também senti o fado naquela peça. A profundeza do fado, a intimidade do fado, o luto e a paixão do fado.
É sempre tão bom quando nos mostram noutra língua, noutra forma, o que vamos sentindo pela vida. E o que a Telma fez com esta peça foi traduzir na sua língua e na sua forma o fado que tem língua e forma em cada um de nós.
Junto-me a ela. Sobre a sua peça escrevi este poema onde coloquei a voz da Carminho em cada palavra.




Fado
Para a Telma, pelo seu fado.
Para a Carminho, pela certeza de que o fado está maior com ela.

Tenho um sorriso guardado na boca do meu amor.
Tenho uma flor que nasce nas ruas da minha dor.
Tenho um navio que espera as ondas que ainda virão
E a tempestade que vi quando me vi no teu coração.

Tenho um silêncio que mora em meu peito infinito
E uma tristeza que veio do ardor de mo teres dito.
Oh! quantas vezes me dizes que ter um peito assim
só de fado, só de sina, só de amor pode ter fim?

Oh! quantas vezes disseste adeus sem saber por que partir?
É um porto este meu peito que teu mar veio vestir.
E, sendo ultimo e só de adeus, esse mar, esse porvir,
pode doer, meu amor, mas mesmo assim eu quero ir.

Fafe, 10 de Dezembro de 2011.
+ informação sobre Telma Mota aqui: http://telma-mota.blogspot.com/



Friday, December 09, 2011

Amor e espanto.


 Foto PMM - Genebra
Desloca-me na luz que nunca faltou ao teu coração. Deixa que viaje pelo sorriso que não entardece nos teus olhos e que trouxeram ao mundo a ternura.  Fica aí como se morresses em mim, só porque morrer é um acto de eternidade.
Se puderes fala-me, mas não termines a história. As historias que acabam não prestam, só prestam aquelas que tendo um fim continuam noutras e por isso não param efectivamente. Se puderes fala-me dessas historias, que elas são irmãs do amor. E o amor também tem muitos fins, mas se for verdadeiro não termina.
E se me inventares, não te preocupes com isso. Eu também te inventei este tempo todo e nem por isso a infelicidade tocou os meus dias, ainda que tenha chorado algumas vezes, ainda que tenha dito adeus a muitos de mim que eu inventei e a outros tantos que foste tu a inventar. Mas os meus eus e os meus eus que tu criaste são filhos do nosso amor e por isso são um mapa na rota que, não sabendo, é a rota que decidimos seguir pelo que nunca se alcança sobre o destino. Se puderes, fica. É que eu não sei como é que poderei continuar os meus eus separados dos outros eus de mim que tu criaste e, mais do que isso, dos muitos tus de ti que eu criei.
Deixemos que o mundo entre. Deixemos que as horas sejam uma madrugada perto de um porto de embarque e que voltemos a nada saber sobre a viagem, apenas que viajaremos, que continuaremos, à espera do espanto, à espera de saber como se ama de cada vez que se parte, de cada vez que se muda, e mesmo assim se não morre, nem para o passado. Deixemos que o mundo entre. Há sempre um qualquer espanto à espera do amor e isso nos tem bastado.