Wednesday, November 30, 2011

Um ponto.

Foto PMM - Zagreb

Um ponto sobre a frase. Um corpo. Um ponto é um corpo. Uma atitude, uma despedida,uma interrupção. Um ponto a garantir o passado do pensamento, a inquietação do vivido no que há para viver. Um ponto é uma declaração de amor à existência. Por ser um ritmo, por ser uma decisão. Escrever é entender as horas e guardá-las. Um poeta é um guardador.

Amanhã pensaremos sobre o que fica da cidade. Escutaremos a sonoridade da solidão e seremos felizes para sempre com ela. Porque a solidão é um estado da felicidade onde se resume o que mais interessou no que fora a nossa vida enquanto estivemos juntos com o que mais importou, com o que nem o tempo, nem as suas leis conseguiram matar. Amanhã estaremos no lugar de onde nunca saímos, a mais limpa das nossas verdades.

Tuesday, November 29, 2011

Exílios.

Foto PMM - Fafe


Há um dia em que se regressa a casa. E a casa é uma cidade. Cheia de estranheza, de desconhecidos, de canções que não nos conhecem o coração, de poemas que não sabem do nosso olhar, de ventos que nunca nos passaram pelo rosto. Há um dia que se regressa para sentir esse cansaço e parar como param os velhos sobre a imagem do sol de inverno. Parar para entender, para rasgar frinchas num qualquer ponto onde nos possamos ver, nem que seja a meio de uma fuga ou de uma partida. Um pedaço onde se possa começar.
Há um dia em que sabemos que nunca se regressa porque o regresso não existe. O que existe é a percepção da viagem em nós e nos outros. E a viagem é uma história. E a humanidade é uma história. E a cidade é uma história. Há um dia em que tens um país no coração e não sabes. E nesse instante ouves uma canção, um poema, uma certa ventania, e então percebes que, fujas para onde fugires, andes por onde andares, nunca chegaste a sair do coração.

Outono.



 Foto PMM - Fátima
O outono traz-me. Tem a brevidade dos extremos mais suaves. As cores mais passageiras, porém intensamente a marcar o que se aprende do movimentar das paisagens.
Um dia decidi que iria andar pelo mundo. Um dia decidi que não pertencia a um só lugar que não fosse pátria no meu peito. E no meu peito guardo as pátrias onde espalhei o meu espanto.

O outono traz-me. Há uma terra que não existe e onde é quase sempre outono. Estamos por aí à espera de morrermos. Somos uma árvore, mas a mais bela. Por momentos esquecemos. Esquecemos só para sabermos alguma coisa sobre a saudade, assim que voltamos a lembrar. Por momentos, sabemos que a vida é um circulo, mas também que a nossa grande missão está em conhecer o ponto no qual decidimos que as extremidades se hão-de tocar, para se cumprirem para sempre.

Sabonete Chipre Flores

Foto: PMM - Fafe
O ofício das horas é difícil. Por isso, devemos trabalhá-las de forma a que se não percam, a que nos deixem mais daqui e mais nos outros. As horas são muito curtas, mas muito nossas. Com o regresso do tempo frio, regresso habitualmente aos meus aromas do inicio de mundo. Do meu mundo, leia-se. Aí se guardam, entre outros, os que vinham da nossa loja. O «Martins da Avenida» vendia além de fazendas, alguns perfumes e sabonetes. Regressar a esses aromas é manter o exercício de ir à vitrina que ficava do lado direito da entrada e tirar de lá o Chipre Flores, da empresa Confiança, um dos seus clássicos, iniciado nos anos 20, “composto com notas de eucalipto, especiarias, laranja e lavanda”. No ofício matinal das horas, sabe-me bem tomar banho, regressando a essa época, às sonoridades do que já não existe, às suas vozes, aos ruídos do Largo, à ameaça de frio da casa onde nasci.
Começar o dia é, antes de tudo, começar o coração. E fazer escolhas. A primeira é a de não desperdiçar o tempo, a segunda é a de o amar até à exaustão, a terceira é a de não resignar, de não perder a característica, a identidade, as nossas pequenas coisas, que dão lugar aos nossos pequenos sentimentos, que dão origem aos nossos pequenos gestos, que acabam nas nossas mais expressivas e últimas atitudes.

Começámos assim o dia. Há um perfume que nos liga. Num perfume pode caber o universo, se aí o tiveres guardado alguma vez. Começámos assim o dia, para que nada acabe, para que não morras, para que nunca morras, pois só o amor é capaz de remediar a morte.

Friday, November 25, 2011

Perguntar-te.

Foto: PMM - Varsóvia
Poderia haver uma parte do mundo onde o silêncio fosse a primeira abordagem. A primeira forma de estar junto às causas, olhando-as como se olham os barcos, os que partem e os que chegam. E depois, ainda em silêncio, perguntar por que partem e por que chegam. Sabê-lo primeiro em nós para a seguir inventar a pergunta. Uma pergunta é uma invenção de nós mesmos no mundo que já nos pertence de alguma forma, mas que ainda está do lado de fora. Mas uma pergunta não é uma pergunta. É uma invenção. Inventamos o que perguntamos e inventa-mo-nos no que perguntamos.

Gostava de perguntar-me há quantas horas te consigo amar? Gostava de perguntar-te há quanto tempo fui morrendo e nessa morte se ergueram as mais memoráveis sintaxes da nossa interminável conversa. Sim, porque não conseguimos parar de trocar perguntas. E cada pergunta é uma conversa que vem do fundo de nós, mas também do que decidimos que deve ser a incógnita de nós mesmos.
Uma pergunta é uma decisão. Um dia não te perguntarei mais nada. E esse será o dia em que estaremos ambos efectivamente mortos. E teremos que ser os dois a partilhar esse estado de morte, pois a sobrevivência de um fará com que continuem as perguntas, vestindo-as de outras roupagens, levando-as para uma lonjura que o nosso desaparecimento acarreta, mas que é uma lonjura cheia de coisas rentes, a rebentar dos objectos, dos nossos, ainda que na ausência que o destino sempre deposita como se fosse pó sobre a casa abandonada, sobre os móveis por abrir, sobre as vozes que já só a memória reconstitui no mais recatado coração.
Gostava de perguntar-te, quanto tempo demora o coração a não saber? Apenas isso. Apenas por essa ser a mais funda certeza do amor.

Tuesday, November 22, 2011

A estrada.

Foto: PMM -Guimarães
Qualquer dia entenderás a viagem. A estrada é uma caligrafia do que foste pensando sobre o mundo e, às vezes, o que quiseste dele. E quando paras sobre essas vezes, percebes que foram poucas, por terem sido mais aquelas em que te detiveste no que te pareceu serem dádivas. Mas na viagem, é sempre muito duvidoso o que se dá e o que se recebe, mas também não importa, o que importa é que a estrada é uma caligrafia e o pensamento é um planeta, uma rota, um mapa, uma mão. Qualquer dia entenderás essa mão sobre a viagem e saberás morrer nessa funda e longínqua felicidade que é ter vindo para inscrever coisas na parte ainda vaga do universo. E poderás enfim agradecer, por ter havido um espaço ainda vago para ti.

Monday, November 21, 2011

O arco do teu olhar

Foto: PMM -Varsóvia
O arco do teu olhar sobre a minha solidão
é uma viagem onde adormecem os deuses,
onde aguardam as estações, onde as flores se demoram
e o perfume do Tempo se resguarda
como só o silêncio sabe resguardar-se do que foi belo
e nunca chegou a partir,

por não ser do Tempo o que nunca parte,
por não ser das mãos ou do toque,
por não ser do que os deuses criaram para ter um fim,

por ser do que os deuses criaram para serem deuses,
sem que o soubessem. Às vezes, também é assim o amor.

Uma árvore.

Foto: PMM -Zagreb
Uma árvore é o que guardo de ti.
Uma árvore a enraizar-se no meu peito,
cumprindo aí as estações e as suas histórias.

Uma árvore onde ensombra o meu silêncio
por ser tão longa e densa a sua copa,
por ser tão passageira a frescura que um dia
te roubará a idade e te deixará no Tempo
como se deixam as estações

no fluir dessa longa e bela forma de partir
sempre que não foi do mundo
o que no mundo se guardou.

Friday, November 11, 2011

O Barco

Pintura: Martin Johnson

Hoje trago-te um barco. A viagem imperfeita que é mãe da beleza, a palavra inacabada que é sangue do poema, a voz interrompida que é o começo do amor.
Hoje trago-te um barco por não saber que rio é este que me faz pensar em travessias e não ter medo da lembrança.
Estendo-te esse barco. Espero. O rio ouve-se, o rio cheira-se, o rio sente-se. Só a travessia é uma longa pergunta. Onde temos vivido, se não paramos de perguntar e sempre soubemos que havia um rio pela frente?
Espero. Enquanto isso as margens. Enquanto isso o corpo. Um dia morreremos e tudo ficará. Acrescido da imperfeita viagem, da palavra inacabada, da voz interrompida, do espanto que nunca temeu a lembrança.
Hoje trago-te um barco para desatracar a solidão, apenas.
O rio continua. A travessia por fazer. E a viagem, a viagem que vai tão longa. Talvez as margens não existam, ou não sirvam para nada. Só a correnteza conta. O rio estará sempre. Tu estarás sempre.
As margens são uma inutilidade. Tudo o que é verdade partiu já da solidão. Trago-te um barco. Sem mais nada que não seja o espanto. Um barco onde guardo todas as perguntas. As que me não deixam morrer.

Wednesday, November 09, 2011

Nova obra de César Taíbo


Amanhecer sobre a visão da mais recente obra de César Taíbo «Os pesadelos de Hergé», uma paródia aos tempos actuais, uma grande síntese das inquietações da Europa nos tempos que correm. Um quadro como um duro retrato de época, uma ontologia das contradições do ser no mundo e no tempo. Um retorno, um eterno retorno, ao difícil passar das coisas, à lentidão das horas sobre os pesadelos e fantasmas que não partem, que vão ficando transfigurando-se em crónicas ironias.
O universo do César é um planeta, já o escrevi um dia. Um planeta onde costumo ir e onde reconheço as faces, as dele e as minhas e as dos nossos. Há uma janela que é preciso abrir muitas vezes, a janela da arte, por mais difícil, por mais dolorosa, mas que é urgente que se abra. O que o César mostra da sua varanda sobre o espírito é uma noção do tempo. O tempo é uma pedra onde se inscreve tudo e só as intempéries e as rupturas são capazes de suavizar. Mas o tempo é algo de inventado e corre muito lentamente, o que é muito bom para o que se sabe do amor, mas muito duro para o que se pretende desligar dos ódios e das contradições. Desde a Grécia, desde antes da Grécia, que  não nos saem da vista estes pesadelos e estes fantasmas. E porquê? Porque a humanidade é muito menos amanhã do que julga ser. Outra vez, escrevi que bastaria ao nosso tempo que fôssemos Cristãos. E ser Cristão é perfilhar uma ideologia, ou uma fé, que tem mais de dois milénios. E, contudo, ainda estamos muito aquém desse aportar sobre a liberdade que é evocada na voz desse Cristo, de olhos abertos e braços abertos, perto dos Homens, o Cristo que está retratado na magnífica escultura da nova basílica de Fátima. Estamos ainda na margem de cá dessa ideia, da margem de cá do pensamento dos sábios Gregos, da margem de cá dos poetas do oriente, da margem de cá dessa longa e doce e funda liberdade, embora dela já nos tenham contado as suas faces há alguns milénios. O tempo é lento. Os pesadelos demoram-se. Mas também se demora o amor, por compensação, como arma, como a melhor e mais funda arma para afastar fantasmas e destruir pesadelos.
A obra de César Taíbo estará disponível para ser visitada na exposição que abre sexta-feira em Fafe, nas comemorações do 25º aniversário do Cineclube, acompanhado de mais 24 artistas que fizeram estrada com este grupo de cidadãos que um dia decidiram mostrar o cinema que os circuitos comerciais não mostram e com isso inquietar a mente e o coração dos fafenses.
É sempre um acontecimento quando César estreia uma obra. Este é um dos mais bem conseguidos retratos do mundo que ele produziu nos últimos anos. De braço dado com Hergé, que é uma espécie de jura: de braço dado com quem tem da arte a nobre missão de dizer alguma coisa ao ouvido mais sensível da sua época e do seu contexto.

Friday, November 04, 2011

Dez perguntas sobre a Liberdade



Na minha terra, no decurso das comemorações do 37º Aniversário da Revolução do 25 de Abril de 1974, questionava-me sobre o percurso que tinham tomado as escolhas dos Homens, mas sobretudo pensava naquelas que teriam sido as suas motivações.
O grande mistério de tudo isso não reside nas respostas. Mas antes, na forma como cada um enunciou as suas próprias questões.


para Gérald Bloncourt pelo seu trajecto nas mais luminosas questões sobre a dignidade
Humana.
 



1
O que trazem as mãos que não tenha vindo
do que ensinara a privação e a estranha criação dos sonhos?

Dois
Se as flores evidenciavam a cor e o perfume das estações
que sempre vinham,
por que razão guardámos nas flores as revoluções que tardavam?

Três
Se te não souberes revoltar, de que te adianta aprender a cantar?
Se te não souberes indignar de que te servem os livros,
se memórias não tens que os questionem para que te não morram?

Quatro
Existem abismos onde dolorosamente se morre,
mas também onde se descobre a beleza das pequenas flores da montanha.
Por que fechas então os olhos se há sempre pequenas flores
em cada abismo, se há sempre uma montanha que é tua
pelo que sempre soubeste das tuas alturas, das tuas distâncias?

Cinco
Algumas canções choram o que sonhámos e não conseguimos alcançar.
Mas por que choramos nós se o sabemos?

Seis
Os barcos que nos levavam à guerra, quantas vezes mataram
os regressos, as chuvas, os medos, as diferentes estações, o estranho amor?
Quantas vezes se morre numa guerra, coração?

Sete
Quantas vezes mergulhámos nas sombras a perigosa inquietação
das perguntas? Quantas vezes aí as matámos ?
Quantas vezes não voltámos a nascer?

Oito
E se um dia partires? E se não olhares para trás? Haverá um erro?
Conseguirás vê-la, a Liberdade?
E se um dia partires com uma Liberdade sem passado?
Serás livre com o que te sobra?

Nove
O Povo é uma ave. Por que silencias as linhas que são do horizonte
as suas rotas, os mapas tão íntimos onde era suposto descobrires novas terras
e, mesmo assim, voltares?

Dez
Tem muito cuidado. Há sempre uma resposta a querer matar-te as perguntas.

Dix  questions sur la Liberté


(Dans ma Ville, pendant les célébrations du 37ème anniversaire de la Révolution du 25 Avril de 1974,  je me suis interrogé sur le parcours qui a pris les choix des Hommes, mais surtout ce qu’ils ont pensé et qu'elles auraient être ses motivations.
Le grand mystère de tout cela ne réside pas dans les réponses. Mais plutôt dans la façon dont chacun a énoncé leurs propres questions)

à Gerald Blouncourt pour son trajet dans les plus lumineuses questions sur la dignité Humaine.

1
Qu’est-ce que les mains apportent qui ne soit pas venu
de ce qui était enseigné par la privation et l’étrange création des rêves?
2
Si les fleurs ont  mis en évidence  la couleur et le parfum des saisons
qui venaient toujours,
pourquoi avons nous gardés dans les fleurs les révolutions qui tardaient?
3
Si tu ne sais pas comment te révolter, pourquoi dois-tu apprendre à chanter?
Si tu ne sais pas comment t’indigner de quoi te serviront les livres,
si tu n’as pas des mémoires que les questionnent, pour qu’ils ne meurent jamais en toi?
4
Il ya des abimes où on meure douloureusement,
mais aussi où on découvre la beauté des petites fleurs des montagnes.
Pourquoi alors veux tu fermer les yeux si il y a toujours des petites fleurs
dans chaque abime, s’il ya toujours une montagne qui est à toi
à cause de tous que tu as connue de tes hauteurs, de tes distances?
5
Quelques chansons pleurent ce qu’on a rêvé et pas conquit.
Mais pourquoi avons-nous de pleurer si on le sait?
6
Les bateaux qui nous ont déplacé à la guerre, combien de fois ont t’ils tué
les retours, les pluies, les peurs, les différentes saisons, l'étrange amour?

Combien de fois on meure dans une guerre, mon cœur?
7
Combien de fois nous nous sommes plongés dans l’ombre
de la dangereuse inquiétude des questions ?
Combien de fois nous nous sommes y tué?
Combien de fois on n’a pas eu l’option de renaitre?
8
Et si un jour tu partirais? Et si tu ne regarderais pas en arrière?  Aurait ‘il une erreur?
Pourrais-tu la voir, la liberté?
Et si un jour tu partirais avec une liberté sans aucun passé,
serais tu libre avec ce qui te reste à ce moment-là?
9
Le peuple est un oiseau. Alors, pourquoi réduis-tu au silence les lignes qui sont de l'horizon
son parcours, ses mappes intimes où on devait découvrir de nouvelles terres
et retourner, quand même?
10
Soyez très prudent. Il ya toujours une réponse à vouloir tuer tes questions.

traduction: Silvia Araujo