Sunday, September 25, 2011

As vindimas.


Regressámos às vindimas. Um ritual extraordinário de colheita. Colher as uvas que se trataram ao longo do ano, sulfatadas a seguir às feiras de Maio, ainda que o hábito deva ser repensado conforme o ano e o clima.
Voltar às ramadas e aos bardos. Arrancar as uvas e preparar o vinho. Voltar à geometria dos arames que se cruzam no alto das videiras e ao engenho de lançar a escada sempre com altura que chegue para que, caso um arame rebente, haja lanços suficientes que esbarrem no arame a seguir e nos segurem no alto da ramada, evitando a queda.
As vinhas. As nossas. Plantadas pelos ancestrais, cuidadas ao longo de décadas. O nosso vinho. O vinho das nossas conversas, das nossas sombras de verão, dos lanches por baixo da ramada, das memórias retomadas nessa sombra. Os que estão e os que já faltam a essa luz, mas que sempre voltam, porque ter uma ramada é também ter um lugar de regresso, é também ter uma ponte entre mundos.
E de súbito a magia dos Homens a trazer tudo e a trazer todos e a ouvirmos o que já só o coração escuta, as gargalhadas, os afectos, as partidas e as chegadas, as despedidas programadas de final de verão aos que iam para o Brasil, para França, para o Porto, e as despedidas súbitas dos que foram morrendo, sem aviso, sem cuidado. Nunca se cuida uma morte. Não é possível. É sempre mais forte do que nós. Nunca se preparara nem se está preparado. Mas as vinhas ficam e nós lá as vamos cuidando, como se não desistíssemos das pessoas e das suas histórias.
Este ano lá voltámos a essa felicidade, a esse reencontro, a essa riqueza mais funda que qualquer coisa que o dinheiro compre ou o poder conquiste. Voltámos à nossa forma de sermos um círculo, uma ilha, um pedaço de existência quase perfeito, quase sem palavras que consigam explicar essa magia que nos liga. Uma religião no sentido primordial da palavra: voltar a ligar, nunca quebrar a ligação, re-ligar. Uma família é isso.
Regressámos à nossa vindima, esmagámos as uvas no lagar, enchemos os pipos. Agora esperaremos até Novembro para ver como sairá o deste ano. O meu filho mais velho já vindima. O mais novo ainda não sobe à ramada. Chegará o seu dia. As vinhas hão-de continuar. O importante e o único nisto tudo é a sua singularidade. É serem as nossas vinhas, a nossa família, o nosso vinho e a nossa narrativa. Nada disto se compra. Nada disto está disponível na modernidade das grandes superfícies e num certo capitalismo que fica a léguas do nosso pequeno canto.  Nada disto se consegue sem o amor que se põe nas coisas. Essa sim, a riqueza que importa. Que nunca nos falte. 
Em Novembro provaremos o vinho e compararemos tempos. No Natal regressaremos à adega, e traremos de lá o tempo todo, os nossos todos, sempre inteiros, sempre sentados na nossa mesa, ainda que nas suas cadeiras estejam os que vieram a seguir, os que sabem destes pelas narrativas que o tempo ainda guarda no coração dos que ainda ficaram e têm na sua rota a missão de contar e recontar a mais genuína riqueza que se pode deixar aos que ficarão a seguir a nós: a nossa razão, o nosso sentido, a nossa maneira de sermos íntegros e de morrermos muito depois da nossa morte.

A flor dos dias.


para o valter hugo mãe, no dia do seu aniversário

Parte de uma flor.
Como regressar se daí se parte?
Que forma dar à fuga se em vez de chão fora o perfume?
Se em vez do corpo fora o sangue? E só no sangue a sua rota?

Parte de uma flor
para que o fruto seja o que inventa a flor que fica,
nem que seja só no coração,
nem que seja só o coração
essa paisagem.

Sunday, September 18, 2011

3 Retratos de Partida

 
 1)
Há uma narrativa no que se não conhece.
Uma narrativa de tempos que não são teus.
Uma narrativa que te espera.
Como só a morte sabe esperar.

Até lá terás de viver.


2)
Existe sempre uma vez em que perguntas
pela direcção que segue
aquilo que ainda te falta à Liberdade.

E nessa vez, há uma música que guardas do tempo da guerra,
um texto que sabes decor, um instante que não viveste
mas que quase te mata de saudade.

Existe sempre essa vez
de não esqueceres aquilo que só a dor ensina
e, na outra margem, o que nunca te faltou
porque o imaginaste

e te foi ditando, um a um, cada instante que na sombra
te abandonou a mais bela face da Liberdade,

só para que o soubesses e aí morresses
sem um lamento.
3)
Estás pronto a partir. Põe o cachecol. Esquece o Verão.
Esquece os violinos impossíveis que contavam
o que devias ao medo.
Esquece o piano a detalhar-te as horas de ficar
no lodo impossível do que te viam por fora.
Leva a memória, apenas isso. Leva-a para que nunca tenhas de voltar.
Estás pronto. Põe o cachecol. Esquece o Verão.
Há uma parte da vida onde não chegaste ainda
e onde será diferente morrer.


Varsóvia, 12 de Setembro de 2011