Wednesday, August 31, 2011

Dar e receber.



Uma tarde, em Zagreb, parei para um café,à espera de mais mundo. Esse esperar é sempre circunscrito à necessidade de colocar mais mundo no que é nosso desde sempre, no que é construído por nós na nossa escala de dentro. Ou seja: o mundo que procuramos por esse mundo fora não é mais do que um confronto ou de uma confirmação do mundo e da vida que temos levantado até ao nosso presente. Sim. Levantado porque só vale mesmo o mundo que se levanta e não o que nos cai por herança ou por infortúnio.
Nessa tarde, em Zagreb, andei a fazer balanços. Balanços de missão. Pensamentos sobre o que estava cumprido na rota, na missão que ainda me faz sair de casa, às vezes de mim, às vezes de quase tudo, e perguntar, perguntar com muita verdade onde está melhor o nosso Tempo. Lembro-me de ter sorrido, ao pensar isto. E esse sorriso, por ser genuíno, foi o prémio. Continua a ser o prémio. O silêncio dos sorrisos que cada um levanta é a maior das recompensas. Já os orientais sabiam que quando assim acontece, podemos reconhecer que nunca se perdeu a dignidade, por termos dado o nosso melhor.
Dar. Não receber. O receber é uma incerteza, uma interessante incerteza, uma apaixonante incerteza que faz parte da ornamentação, da narrativa, da textura da nossa missão junto do nosso contexto.
O receber não chega, desponta. Ninguém dá nada a ninguém verdadeiramente. Os humanos desenvolvem capacidades magníficas de conseguirem saber receber o que os outros inscreveram na sua missão dar. E quando assim acontece, acontece a paz, a justiça, o amor, a liberdade. Acontece o melhor do mundo.
Ou seja: se não soubermos avaliar com justiça e inteligência o que nos dão, não sabemos receber. Há vezes em que nos é entregue material ou imaterialmente algo e não nos sabemos receptores dessa dádiva. Por outro lado, a dádiva só por si mesma também não existe. Ela parte de uma missão. Uma missão é algo que está para lá da solidão de cada indivíduo, tendo em conta que o êxito desta reside na abertura do receptor para a saber receber, nem que seja de forma imaginária, nem que seja apenas fruto de um certo desejo inconcretizável.
Quando o dar e o receber se encontram temos mundo, temos gente no seu pleno, ainda que nos gestos mais simples. Daí que os balanços da nossa missão passem por essas paragens onde se chega a um certo silêncio que questiona o que demos, o que soubemos receber e que mundo ficou depois de tudo.
Quando terminava o meu café em Zagreb, na praça da Ópera, tinha uma certeza: se o mundo me acabasse, eu não acabaria ao mesmo tempo. E isso é um bom princípio, é uma excelente notícia para um fim de dia, já agora, de missão. É algo, aliás, que, felizmente, acontece com regularidade a grande parte das pessoas. E essa foi a segunda constatação, a segunda boa notícia.

Thursday, August 11, 2011

Fina Rosa - a eterna mariposa


Nas Festas da Vila de Arões visitei a feira de artesanato e de produtos locais, a convite da sua Presidente, Claudia Castro. No meio da visita, chegámos ao stand de Fina Rosa, artista da terra que se juntou aos seus e apareceu também ela com o seu génio como mais um fruto daquele chão. Trouxe objectos que preparou para o evento e uma surpresa: as pirogravuras.
Contava-nos a artista que tinha decidido experimentar a pirogravura, recuperando uma antiga máquina que pelo seu sótão andava. Decidiu experimentar com a idade de 92 anos. É essa a grandeza da alma de Fina Rosa: a disponibilidade, que nela não tem fim, de experimentar, de inventar novos começos, de dizer ao dia o quão novo está o seu coração e quão desperto continua a sua forma de olhar a primeira luz da manhã. Toca-me muito esta predisposição para a beleza e para a não rendição.
Fina Rosa completa, hoje, 93 anos e nesta idade ela é a mariposa que pirogravou num quadro, essa obra que trago no pensamento desde esse encontro. Mariposa de infindos casulos, de sucessivas metamorfoses, de inequívocos encontros com o que é belo e vale uma vida.
Na sua vida continua o inseparável companheiro, Sr Silvino Moreira, com 95 anos, que é o mais moderno dos jornalistas que pelo Jornal Povo de Fafe passou, continuando no activo a escrever e fotografar, a ser o marchand da sua amada, falando e fazendo da sua obra também uma das suas razões de resistência.
Fina Rosa é um perfume que Fafe tem. No seu sorriso cabem os nossos melhores afectos, no seu exemplo devemos morar, como se mora numa casa em frente ao oceano ou às montanhas mais altas e a perceber nesse olhar sobre o dia o quanto é magnífico estarmos no mundo, termos nascido, termos o privilégio de nos cruzarmos e sermos maiores por nunca desistir do que realmente vale a pena.
No dia do seu aniversário, mudei-me para o ar guloso de um quadro seu, já antigo, retratando o seu neto a comer melancia, e aí fiquei a saborear este verão e a agradecer o tê-la conhecido um dia, e a imaginar: que fará para o ano essa mariposa? Que metamorfose ocorrerá na sua vontade? Que quadro mais pintará que nos traga o seu mundo? E sorrio, como se dissesse: longa vida, minha amiga! Longa vida!