Friday, July 29, 2011

As guerras.



Por estes dias, paira sobre a consciência do mundo os atentados na Noruega. Há um ruído negro que parece levantar-se junto do solo e que drasticamente começa a mostrar-se como se fossem estranhas personagens vindas de um antigamente a que juramos não voltar.
Por estes dias, tem-me inquietado o esquecimento da guerra. Quando se esquecem as guerras, nem sempre é um sinal de evidência da paz. E por momentos, retomo os relatos de vítimas de guerra, de vários tempos, retomo a arte que veio dos horrores da guerra, retomo o olhar de sofrimento infinito dos homens e das mulheres a quem as guerras roubaram quase tudo que foram amando alguma vez.
Esquecer as guerras é também um atentado contra a Humanidade. Esquecer é deixar de aprender. E no amor e na guerra nunca podemos abdicar da aprendizagem. Por isso retomo a uma espécie de inverno nesta manhã de verão adiantado e ouço na minha memória o tema «Bella Ciao» da Resistência Italiana durante a II Guerra Mundial e o violino de Itzhak Perlman na composição de John Williams em Schindler’s List , e volto a prometer com o coração mais universal que me conheço: Nunca esqueceremos!

Wednesday, July 27, 2011

Maria Lúcia Lepecki.

Morreu Maria Lúcia Lepecki. Abri a manhã de hoje ouvindo-a numa conversa na Antena 2. Só me ocorre a expressão africana, «quando morre um velho arde uma biblioteca». Está em cinzas mais uma. Arde este perder. É desgastante essa visão. Maria Lúcia que se ligou a Fafe pelo que descobriu na investigação de Miguel Monteiro sobre os Brasileiros de Torna-Viagem. Um novo adeus que nos empobrece muito, pela força e pela combatividade cultural que demonstrava. Ainda ontem de madrugada folheava um álbum de fotografias de Minas Gerais, sua terra natal, e sem saber da sua partida, pensava para comigo: se o Brasil não fosse tão longe, gostava de ir a este lugar. Gostava de não morrer sem ir a Minas. Mas o Brasil é longe. Também por isso é fascinante. Gosto de sentir essa lonjura. Gosto de o saber assim. De o conhecer por relatos de sonhos, por descrições de dor e de saudade, de amores e desamores. Gosto desse Brasil que conheço pela emoção dos outros. É bonito conhecer assim um país.
Na lista de favoritos de Maria Lúcia Lepecki encontrava-se a «Casta Diva», uma aria de Bellini, cantada por Montserrat Caballe. Retomo essa aria agora que escrevo e junto-me ao seu coração que não passou indiferente ao coração que não morre, que acrescentou ao coração que não morre, como se fosse uma flor.

Tuesday, July 19, 2011

Começos



Às vezes começo a manhã a ler o diário argentino «Clarin». Porque há dias em que tudo começa melhor com uma escapada emocional até uma Buenos Aires que existe para lá das geografias concretas, que existe no lado de dentro do coração viandante que cultivo desde que me conheço e onde me cruzo com a luz que antecedeu os tangos de Gardel, mas também de Piazzola, onde procuro as sombras de Borges e as suas infinitas questões sobre os dias do mundo. Às vezes começo-me estrangeiro por amar demasiado o meu chão, para poder vê-lo de longe e entender a fundura das suas coisas que são tão rentes. Às vezes, muitas vezes, parto. Parto para aprender sobre o que fica.
Esta manhã, o Clarin falava da morte do poeta mexicano Alí Chumacero que dizia do ofício de poeta:« Nuestro oficio consiste en hacer creíble lo increíble, en hacer inverosímil lo creíble “. Abro o dia com esta inquieta missão que não é exclusiva de quem escreve, mas de quem vive. E regresso, como regressava em pequeno ao corredor do lado direito da Igreja de S. José, na minha terra, para contar a Deus as letras que já sabia juntar antes de entrar para escola. Regresso ao meu lugar para começar o dia com esta espécie de jura: nunca pararemos de tentar encontrar o que nos falta, mesmo que essa parte seja, sobretudo, o que não fazemos a mínima ideia que possa existir.