Tuesday, May 31, 2011

Genuinidade

quadro de Antoni Tapies

No claro amanhecer decalca-se a possibilidade de novos começos, de contrariar a morte, a morte do que se perde, a morte do que ainda se não tem, a morte da morte dos que nos querem bem.
No claro amanhecer engendra-se a Liberdade. A mais funda sabedoria dos Homens foi a de associar ao ritmo do mundo a tatuagem do que nunca quiseram prender, aí habitando também o Amor e a Beleza. Este trio Liberdade, Amor e Beleza é o que segura a História. Tudo mais são artifícios que sustentam efémeros estatutos e condenadas vontades que corroem o fraco sentir dos pequenos e passageiros Homens.
A utilidade do mundo reside nesta coisa intangível que se chama genuinidade e que nos disponibiliza para o mundo e para a vida com os demais. O ser genuíno é imenso. Nele são quase infinitas as paisagens da Liberdade por ser infinita a noção da sua urgência e a mais inquietante noção da sua raridade, face a tantos aprisionados em si mesmos e no mundo. O ser genuíno perde-se na Beleza por nela se confundir e por saber que é só daí que o tão frágil conceito do que é Belo pode durar um pouco mais na fala tão mágica de que quem o sente e ao dizê-lo acredita. A língua do Amor só respira da genuinidade de quem sentindo-o consegue propaga-lo. E nessa ligação misteriosa e profunda, a Humanidade vai renascendo a pouco e pouco e sendo o que sempre quis.
No claro amanhecer só vale uma certeza: a que se nos despedirmos algum dia do mundo que seja olhando para trás, podendo esboçar um sorriso, tendo no horizonte aqueles e aquilo que genuinamente guardarão o que soubemos recolher da Liberdade, do Amor e da Beleza.
No claro amanhecer a límpida noção de que a felicidade não se compadece com a vaidade, pois a vaidade é uma mentira e a mentira é a miséria dos tempos. A vaidade, como oposição à genuinidade, esvazia os tempos, desperdiça a tão curta e sublime oportunidade de estarmos vivos, desperdiçando a possibilidade de sermos felizes e com os demais contagiarmos o dia e nos banharmos nessa utopia que está mais à mão dos Homens que nas mãos de Deus.