Friday, April 29, 2011

Flores

(início de tarde em Bruxelas com uma inesperada primavera)

As flores que não existem
são muitas vezes a primavera que desejamos.
Outras, as primaveras que perdemos.
Mas sempre as primaveras que fomos guardando
no sempre belo e alheio coração.

Thursday, April 28, 2011

Resistências.



Durante o voo até Bruxelas, para integrar a equipa que organiza a formação europeia sobre participação de jovens na vida política, a ter lugar em Portugal nos próximos dias 4,5,6 e 7 de Julho, e preparar os trabalhos de coordenação desta actividade que reunirá no nosso país os responsáveis pela implementação das iniciativas da Comissão Europeia nesta matéria, através do Programa Comunitário Juventude em Acção, estive a ler o último best-seller relacionado com participação cidadã da autoria de Stéphane Hessel, um Diplomata e Resistente francês, co-autor do texto da declaração Universal dos Direitos do Homem, sob o título de «Indignai-vos!». Esta obra tem o prefácio de Mário Soares, uma indiscutível referência histórica mundial do século XX.
Aconselho a leitura deste livrinho, uma vez que não excede as 50 páginas, mas que toca em questões fundamentais sobre o tempo e o modo como deve evoluir a participação cívica e política dos cidadãos no actual quadro de relações sociais, económicas, culturais e políticas do mundo contemporâneo.
A resistência por via da não-violência e a procura por parte dos cidadãos das suas causas para lutar e expressar pacífica e eficazmente a sua indignação são as linhas mestras deste texto de Hessel que, com os seus 93 anos, mantém uma atitude de permanente intervenção e de especial cuidado com aquilo que entende ser útil transmitir às novas gerações.
Da obra «Indignai-vos» saliento a preocupação com a manipulação manifesta da informação que aos povos chega, por via das preocupantes regras de mercado que fascinaram os magnatas da informação e contribuíram para um certo tolher colectivo que se resignou à ausência de espírito crítico e a uma mentirosa exposição de reality-shows que nada têm de realidade, mas antes de equívocos que levam as pessoas e as comunidades a jogos de submissão inacreditáveis, vencidas que estão a ocidente as clássicas ditaduras e vigorosas que se apresentam as novas expressões de dominação que, não sendo políticas, usam o poder político para provocar mazelas fundas na que deveria ser a consciência esclarecida dos cidadãos, a quem foi conferida a liberdade de ser e representar um Homem um Voto.
No nosso país, mas só aparentemente, e graças à crise financeira, não haverá grandes questões a discutir nos tempos mais próximos no que concerne á ideologia. Mas, desenganem-se as pessoas, pois é nestes momentos de maior sufoco material que as questões ideológicas têm palco. É nestes momentos que os que tudo têm ameaçam seriamente os que menos possuem. É nestes momentos que a relação do mais forte e do mais fraco mais se evidencia, tendo as forças que lutam por um sistema de equilíbrios sociais o seu momento para aprofundar estratégias e mostrar eficientemente que a Economia é a ciência que deve gerir os níveis de satisfação dos povos e equilibrar as relações de força no seio de uma sociedade que não deve transigir nas suas obrigações de justiça, paz social e igualdade de oportunidades.
Uma obra a reter. Um exemplo a não desperdiçar num tempo tão dolorosamente silencioso e tão fundo em certas resignações.

Sunday, April 24, 2011




I
As chuvas amparadas pela idade das pedras, recortadas pelo mistério das varandas.
As chuvas de partida para a estranheza das casas que, não sendo as nossas, nelas conseguimos morar ao passarmos.
Morar em nome do que pode ser Belo em nós.

II
Que oração guarda a chama da mais pequena vela, no mais recatado, porém livre e infinito, olhar do Peregrino, que veio pelas chuvas, pelas ruas, pelas árvores e suas narrativas, pelos pássaros,
pelos desconhecidos céus e pelo Amor?

III
Toma uma bebida quente que seja redentora do sofrimento.
Que tenhas aí sabedoria que baste para entender que a ressurreição dos Homens é a mais que provada ideia de que Deus e o Amor apenas morrem quando já quase nada souberes sobre o Tempo.
Toma uma bebida quente e deixa que a sua Paz te revele a próxima idade onde superararás as raízes que os Tempos deixaram. Delas tomarás conta para que tudo mude, até o mundo, até o dia, milagrosamente dos outros.

IV
Segue as linhas de água e aprende com elas o repouso do olhar. Resguarda-te nos vales sem perder a noção dos montes.
Ergue-te aí. Sê um corpo só com o mundo.
Na pureza com que o conseguires, saberás da narrativa quase perfeita que une Deus e a Terra que une Deus e o que sabemos de Si, no que conhecemos e desconhecemos de Nós.

V
Há um cruzeiro, em Grove, na Galiza, com a Virgem de um lado e Cristo crucificado do outro.
O povo que assim o ergueu entendeu bem a inifinita e indizível crucificação de Maria.

VI
Dos passos incertos, a certeza de uma linha que vem harmoniosa com o sentir do Tempo.
Uma praia, um ínsula, um monte. O somatório do mundo é a mais simples operação de matemática que a complexidade do olhar oferece ao que restará de nós quando só aos outros pertencermos e formos lembrados por essa magnífica aparência de simplicidade.
Quando o simples se atinge, a perfeição é a margem seguinte, daí que só os velhos e os sábios atinjam essa clareza, quase sempre última, quase sempre antes de Deus.

VI
Retomamos a infância no antigo café junto ao mar da Póvoa, o pão torrado e o leite quente. Perguntamos por todos, por tudo, pela lucidez do avô na velha mesa perto da janela de onde o mar se avista, pela séria expressão do pai a pensar nas notícias e no pensar futuro.
Somos apenas o que segue na nossa família. Não somos diferentes. Somos o que se segue. Por isso é muito difícil morrer.
E na Páscoa do mundo, o que nos interesse é saber, a cada ano, como se processa a ressureição da Beleza, da Justiça ou do Amor. É saber dos valores que fazem de Deus a mais concreta ideia que a todo o tempo deixa intangíveis as coisas que sendo concretas não perdem Liberdade. As coisas que, às vezes, os outros desperdiçam e condenam à prisão desnecessária e inconsequente da finitude.

VII
Faz uma promessa. As promessa são sempre a favor da Liberdade. A Liberdade de não morrer, de não sofrer, de poder voltar a estar e de poder voltar a prometer.
Faz uma promessa e jura. Jura, com toda a confiança, que nunca deixarás de ser uma parte dessa Liberdade que, em nome dos outros sugerida, nunca deixará de dizer-te por que bate o teu mais genuíno e perigoso coração, a tua mais intransigente e intransponível fonte de vida.

VIII
O que nos sobra é pouco mais do que a fotografia provisória das coisas e das pessoas e dos lugares.
O que nos falta é pouco mais do que a fotografia provisória das nossas coisas e das nossas pessoas e dos nossos lugares.
Amanhã estaremos dentro desse antigo retrato. Amanhã estaremos no coração alheio. Essa será a mais perfeita imagem que poderemos desejar da nossa tão frágil e deslumbrante finitude.

Póvoa de Varzim. 24 de Abril de 2011.

Tuesday, April 12, 2011

Flores para R.


(ao Ricardo, como se fossem as suas flores favoritas.)

1
Nunca serei poeta suficiente
para o sorriso,
para o fundo abraço,
para as longas tardes onde tudo
roubavas ao futuro do mundo.

Nunca serei poeta suficiente
para te contar.

Mas sei que há poemas
que se não escrevem,
sendo só o tempo o seu dono
e a infinita passagem
a única e a mais justa forma
de os expressar.

2
Ficas no lilás das árvores,
na luz da cidade,
na cor tão difícil que a saudade
mistura com os dias do mundo.

Ficas assim e eu contigo
como se nós e o mundo pudéssemos ser uma narrativa
com crianças e barcos e um rio inteiro
para partir de vez para o mais justo coração,
aquele que os pássaros conhecem,
os que partem de nós,
levando-nos como sempre levavam as estações.

3
E de súbito há um bairro
a atravessar-te o coração.
Ficas na filigrana das faces
e na leve ternura das expressões
que te embalaram.
O teu bairro é um baú
onde se guarda o que se não tem
para a cautelosa idade da saudade.

4
Ainda há uma lâmpada em vidro
acesa ao cimo das escadas.
Só se apaga o que se não conhece.
Subimos até à porta. Batemos.
Estará sempre alguém em casa
enquanto soubermos de nós.
E do lado de dentro seremos os mesmos
que do lado de fora. Uma verdade na vida
é sempre tão provisória quanto sublime
é a noção de que o tempo só nos serve
para o desconhecermos bela e fundamente.