Sunday, March 20, 2011

FAFE



As ruas de Fafe, quando eu nasci tinham pessoas
que como árvores davam luz e sombra,
protegendo em nós as intempéries e os verões escaldantes.
Ter uma terra é isso:
é ter um lugar de plantio e de colheita do que se não esquece,
tudo mais, por mais belo que possa ser,
é uma passagem, é um desaparecimento.

A minha terra é uma pátria porque dela se pode medir o mundo,
o grande e o pequeno.
Medir a partir do primeiro aroma, da primeira ternura,
do primeiro abraço.

A minha terra é uma pátria onde me deixaram o coração.
E que sei eu do mundo que não lhe pergunte?
Das terras por onde andei, eram daqui as perguntas que erguia.
A casa das dúvidas, o ponto onde emerge o desejo,
mesmo que de partir fosse e na sua ausência construir a saudade.

Um dia aqui acabarei, numa velha cadeira
carregada das histórias de mares que conheci
e que outros contaram, meridianos de espanto
lembrando as planícies do sul e o além-mar de onde vinham
impossíveis brisas e todas as baladas.

Mas morrerei aqui com o mundo a escorrer-me dos olhos
e a seguir pela face o que a face da terra sabe
e semeou no coração do tempo.

Aqui terra amada ficarei, simples como no começo:
De braços abertos e o peito em riste
definindo assim este meu passo,
de nesta terra ser um seu poeta e pouco mais,
com um caderno pronto e urgente numa mão
e na outra um hino e um para sempre, nessa outra o coração.