Sunday, February 20, 2011

As comunhões na Vila


(esta foto é da década de 30, no dia da comunhão solene do meu pai)

Na Vila, as procissões das comunhões eram muito frequentadas, não só pelas crianças que cumpriam este sacramento, mas também por familiares e amigos que as integravam, ou que esperavam nas suas varandas para as ver passar. No meu tempo, usava-se levar um ramo de gladíolos brancos para oferecer a Nossa Senhora assim que chegássemos à Igreja Matriz ao fim da tarde, vindos da Igreja Nova de São José. As procissões eram cantadas e rezadas. A oração mais difícil de decorar era a Salvé Rainha. Ainda, hoje, a não sei. E nós lá íamos, centros de uma festa que não era bem nossa, mas da comunidade.
A diferença entre o nosso aniversário e a comunhão era a questão do colectivo, pois quase não podíamos convidar os amigos da mesma idade para vir à nossa festa, uma vez que eles estavam a participar na deles. O peso da Igreja também era enorme. Aquela festa era para nós, mas significava um certo juramento que nós prestávamos à religião. Era muito solene e muito formatada, o que nos deixava sempre uma certa incapacidade de apropriação absoluta. Mas isso não era mau. Havia um interesse grande nesta solenidade nos tenros anos. Raramente uma criança é solene. E aquilo levava-nos a experimentar a solenidade e a participar em nosso nome numa causa onde só nós e a instituição estávamos envolvidos. Os pais interferiam pouco no acto em si, pelo menos na sua centralidade. A nossa comunhão era nossa e da nossa Igreja. E isso dava uma certa independência ao acto. O que era interessante.
Quantas pessoas não terão nestes momentos as suas únicas experiências com as solenidades? E de algum modo, entre ricos e pobres, pelo menos na aparência, nesse dia parecíamos todos iguais. É que no meu tempo, quer na primeira comunhão quer na comunhão solene as crianças vestiam-se de igual o que encurtava naqueles momentos as diferenças. Em minha casa, comíamos vitela ou cabrito assado. Tínhamos bolo da comunhão à sobremesa e umas prendas a que não dávamos o devido valor pois estavam muito centradas nos sacramentos. A minha amiga Rosa Maria deu-me, na primeira comunhão, um pequeno missal que ainda conservo no meu quarto. Usei-o muito. Quando vinha da missa das sete, celebrada pelo padre Zé de Ribeiros, conhecido pelo padre «Zé da burra», parava em frente ao portão da Loja Nova, tirava dos bidões de cal as crostas fininhas que se criavam e levava-as para casa. No dia seguinte, sentava os bonecos em fila, colocava uma toalha nas costas e celebrava com o missal uma Eucaristia. As hóstias eram feitas das lâminas de cal. Nessa altura queria ser padre. Depois passou-me a vontade. Mas o missal da Rosa Maria e o terço em prata que a minha madrinha me deu ainda os conservo como duas imagens felizes do meu tempo das comunhões.
A Igreja Matriz tem sido palco para muitos momentos, na sua esmagadora maioria tristes, até pelo facto de lá ir sobretudo a funerais. Mas mesmo assim, aquela será sempre a Igreja da minha primeira comunhão e do dia em que levei um ramo de gladíolos brancos a Nossa Senhora, o dia em que o sr Abel do Foto Jóia registou para sempre esse momento, e no meio de todas as solenidades, com uma fé muito confusa, eu tive um momento de sincera intimidade e gostei muito de oferecer as flores à Virgem Mãe, fazendo para sempre também minha a velha Igreja onde, mesmo nos momentos mais duros, me sabe sempre a amparo, a felicidade e a retorno o estar ali.

Sunday, February 13, 2011

Martins da Avenida - 1



Os perfumes


Na loja do meu avô, «Martins da Avenida», entre outros produtos vendia-se perfumes. Uma das marcas era a clássica água de colónia Lavanda, da Ach Brito. Uma das memórias interessantes que guardo desse tempo era a das freguesas com menos recursos que compravam perfume por medida. Traziam um pequenino frasco que o Joaquim enchia com um funilzinho de metal, até transbordar, sendo que o perfume a mais era apanhado pelo lenço que as freguesas  colocavam em torno dos frascos, certas de que transbordaria, certas da habitual generosidade do Joaquim. Interessante esta estratégia e o facto de imediato esfregarem o rosto e o pescoço com aquele excedente, desabafando de pronto: hoje já não gasto do que vai no frasco.
A Loja tinha este perfume, não só o das garrafas de Ach Brito, mas o perfume que os sorrisos das pessoas deixavam quando lá iam e aconteciam coisas destas. Essas pessoas que contavam de onde vinham, a que vinham, o que tinha custado a vida. As pessoas que perguntavam por nós e nos mandavam saudações, as pessoas a que estávamos ligados pela admiração que sempre mantivemos por quem se esforça com dignidade pelo seu lugar no mundo. A Loja era uma riqueza para mim, por me dar, em tão tenra idade, tantas histórias, tantos exemplos, tanta realidade e tanta diversidade.

Vinham comprar perfumes
e eram flores essas mulheres.

Flores de montanha.
Flores da altivez que só a coragem
e a doçura conseguem.

Vinham comprar perfumes
e deixavam sempre o mais memorável aroma
que só a distância que me abria no coração
era capaz de espalhar pelos invernos que ainda me faltam
e que vêm desse tempo.

Vinham comprar perfumes
e eram flores essas mulheres.

Flores de inverno, flores de montanha,
flores das flores que Deus plantou no embalo do mundo
e só aí.

Sunday, February 06, 2011

Dança

(Os bailarinos da minha terra homenagearam Pina Bausch e Merce Cunningham num espectáculo memorável no Teatro-Cinema. A Escola de Bailado de Fafe, dirigida por Alexandra Fonseca e Vera Santos, tem desenvolvido um trabalho notável em torno da cultura da dança. Este fim-de-semana, com Princesas Esquecidas “O Segredo Escondido”, podemos ver até onde o talento e a vontade podem levar os nossos gestos, as nossas impressões no mundo)


Sê uma ave de rapina sobre a intranquilidade da beleza. Um relógio de ponteiros que arranham ao passar. Sê uma cadeira e a sua irrequieta quietude sobre o palco. Uma memória adulta sobre a criança que tornas refém do teu silêncio. Um corpo atirado à ondulação das formas que ainda não existem ou que apenas existirão um dia, numa espécie de futuro que quiseste para o que ainda não sabes do mundo.
E dança. Dança com o corpo dessa ideia. Foge o que puderes com ela. Se preferires não voltes. Nem olhes para trás. Dança só com essa ideia que te preenche todo o espaço e ainda o vazio onde poderás questionar se a beleza é uma invenção reiterada de solidões partilhadas.
Soletra o ritmo das coisas concretas na imaterialidade com que os teus olhos dançam. Coloca em pontas o olhar e faz três piruetas com as histórias que querias contar e que foste deixando como uma ave de rapina nos espíritos adormecidos e quase mortos dos que te não viram. Depois senta-te naquilo que souberes da escuridão do palco. Fica aí a ver o que acontece aos espíritos estremunhados pela tua passagem.
Conta. Conta matematicamente o que sucede ao coração depois da beleza. E tenta uma dança, gradualmente a crescer, como vertiginosamente cresce um coração em sobressalto. A vida é assim um registo de inesperados sobressaltos. Caso contrário, morreriam as artes. Caso contrário, acabaria o mundo. Estende um passo para o infinito que guardaste no palco, espreita para fora. Espreita para fora só para te certificares que é esse o mundo. E fica. Fica então, que esse é o mundo.