Monday, January 31, 2011

Cá continuamos


Ainda são os passos, a última música que me ficou da casa. Os seus, em final de vida, já lentos, sem serem decrépitos, mas lentos de quem chega ao fim, sem pressas, com as histórias arrumadas e a impressão de que está tudo pronto para seguir o seu magnânimo para sempre. O quarto dele era o maior compartimento de toda a casa, virado ao Largo. Eu e o avô tínhamos uma espécie de território invisível onde nos entendíamos e guardávamos o que nunca fomos capazes de expressar por palavras. Não sei se acabei poeta por essa razão. Por entender tão bem o que se não diz. Por entender melhor o que se não diz.
O avô guardou-se nas nossas tardes. Resolveu descansar nelas o que nunca chegou a descansar ao longo da vida. Tinha um cadeirão no centro do quarto, junto ao rádio, onde me pedia que lhe lesse os continhos que comprávamos aos sábados de manhã na papelaria Marquês. O avô adormecia enquanto eu lia e, hoje, suponho que seria dos seus sonos mais reconfortantes. Eu próprio não desejo muito mais do que isto para a minha velhice. Não desejo mais do que adormecer na voz conseguida de um neto que me possa entreter, tentando impressionar o meu coração de ancestral com as suas conquistas nas primeiras letras.
O avô adormecia comigo e com as notícias da BBC de Londres a transmitir em onda curta. Quando acordava no cadeirão, ia devagar até à cama, pousando no lavatório do quarto os seus objectos, um a um, alinhadíssimos, para depois se entregar a um sono mais adulto com a família deitada já. O avô deitava-se e era como se a casa também se recolhesse e a Vila e o mundo.
Na nossa casa havia um planeta. Eu cuidava das estrelas, mas era o avô quem as consentia. Só as suas estrelas tinham brilho. Se eles as não visse, elas não existiam. Eu sabia sempre quando as estrelas eram verdadeiras, pois de cada vez que ele as admirava comigo oferecia-me um rebuçado peitoral e dizia-me que eu o tinha merecido.
Se não houvesse rebuçado significava que as estrelas eram falsas e não valia a pena guardar. O avô era a medida do que valia a pena na nossa casa. Não era a única medida, mas era a principal.
À tarde íamos juntos ao Café Império e eu ficava entre o seu pequeníssimo círculo de amigos e as montras de chocolates do Alcininho, ouvindo histórias lentas, histórias de coisas muito distantes mas que soavam a determinantes para que tudo na nossa vida continuasse com a serenidade que povoava a nossa casa.
Também era verdade que a serenidade da nossa casa era o meu mais temido monstro. Um fantasma que me roubava à rua e aos quintais da vizinhança onde se ouvia brincar ao longe e onde comecei a imaginar a felicidade. Quando primeiro se imagina a felicidade, acaba-se sempre por lhe dar um sentido mais fundo chegada a hora de a experimentar. O avô parecia saber de cor esta ideia, sendo muito cauteloso com a forma como cada um de nós se entregava à felicidade. Era como se tivéssemos de prestar exame para atestar o nosso talento para sermos felizes. Não se pode ser incautamente feliz. 
Lembro-me do seu último fim-de-tarde. Do seu último recolher. Da música dos seus passos pelo quarto. Às vezes, penso nesse último trajecto entre a escrivaninha, que tinha vista para o Largo, e a sua cama. Lembro-me do quanto é indizível esse último percurso, ainda que ele o não reconhecesse como derradeiro. Reconhecemo-lo nós, os que ficaram e constataram que aquele foi o seu último olhar sobre o entardecer do Largo.
Ainda são os passos, a última música que guardo da nossa casa. Já nada existe, para fora do território brutalmente nosso que é o coração. Sinto muitas saudades do avô. Falo-lhe muito.
Guardo-me muito nele, como certamente ele se guardou em mim. Faz, hoje, anos que o avô nasceu. E o Largo ainda cá está, a casa tem as janelas com a luz de Maio, a nossa loja tem as portas abertas, há um ruído muito pouco urbano na Vila, ainda cabem no meu corpo os calções de veludo azul marinho e sobre o meu cabelo ainda se sente o pente molhado antes de sairmos para as tardes no Império. E o Arturinho, sem saber que é o avô quem faz anos, vai oferecer-me rebuçados mulatos. Faz hoje anos que o avô nasceu e está tudo tão vivo. Por isso, parabéns querido avô!
Cá continuamos todos. Nunca se morre na nossa casa. Eu continuo a guardar as estrelas e a descobrir ou a tratar da música que um dia deixarei dos meus próprios passos no coração dos nossos pela nossa casa. Cá continuamos querido avô. E uma coisa eu sei: Nunca se desaparece do coração de onde se vem.
Fafe, 31 de Janeiro de 2011