Sunday, December 25, 2011

Que ningém falte.


O relógio de sala a dar as horas. A compassar as horas. As horas não se dão, conquistam-se. O pêndulo é uma espécie de coração da casa. Desde a morte do avô que ninguém o acertou. Sempre que nos esquecemos de dar corda, aguardamos até ao minuto exacto onde parou e recomeçamos. É como se quiséssemos prender o tempo, uma vez que não podemos mais prender as pessoas. Ao menos as horas. As horas são as mesmas, são as do seu tempo, do tempo em que éramos todos vivos da mesma maneira. O relógio da sala é um coração secreto da família. Bate sem as leis da vida. Há um de nós que se encarrega de o continuar assim que outro para. E quando se para nasce-se dum outro jeito.
Ontem, fizemos o pinheiro. É interessante como por cá se usa o termo fazer o pinheiro. Na verdade somos nós que o fazemos. O pinheiro de Natal não é obra da natureza mas antes uma obra do coração. Do coração mais alegre ou mais ferido, mais novo ou mais cansado. É uma enorme imagem do tempo. Diria até que é uma metáfora. A vida toda é uma metáfora. Raramente fazemos aquilo que objectivamente sugerem os nossos gestos. E o pinheiro de Natal não é excepção. O pinheiro é tudo menos um só pinheiro. O pinheiro é um monumento: um monumento ao que já se viveu por estas alturas, um monumento às nossas companhias, ao nosso Deus. Mesmo quem o não tem, arranja um Deus por esta altura para partilhar. E nisso se vê a generosidade humana: até um Deus o Homem é capaz de arranjar só para não estar só, nem deixar só os que o rodeiam neste simbolismo. O pinheiro nasce-nos todos os anos, como nascem as flores e os frutos, como nascem as folhas que caem todos os outonos.
Chegam-me as fotos. Há uma caixa cheia de retratos antigos. Retratos cheios de vozes, cheios de gestos, cheios de toques. A caixa das fotografias é um exército escondido, pronto a não nos deixar cair em momento algum. Mudamos a idade a olhar as fotos, mudamos a cor dos olhos, do cabelo, mudamos a voz. Somos até incapazes de falar, apenas para que se não regresse ao corpo e à forma que vamos tendo por estes dias presentes.
Os dias presentes são uma coisa muito difícil de perceber. Porque ainda não são passado, mas hão-de ser e ainda não são futuro mas hão-de ser. Quando regressamos aos retratos, regressamos a uma estranheza intima. Estranhamos este enigma do tempo:  não estarmos na mesma dimensão dos retratos, mas ao mesmo tempo conhecermos cada silaba desse linguajar que têm os que nas fotos ainda falam. Mesmo que esses sejamos nós mesmos a nascer outra vez, noutras idades.
Quando era pequeno a cidade não existia. Mas existia uma Vila que não cabe no meu coração, ainda hoje. Uma Vila mágica, com uma luz mágica, uma voz mágica, com um corpo que sempre confundi com o meu corpo. As ruas da Vila eram como se fossem uma parte de mim, um rasto que desaparecia assim que os passos se dirigiam para outros lugares. Por esta altura, ia muito com a avó à Igreja Matriz , rezar pelos outros, rezar pelo mundo.
Era fantástico explicar a uma criança a possibilidade de rezar pelo mundo. No tempo da Vila, não viajávamos mas éramos capazes de ter a noção de que havia mais mundo, um mundo muito maior e um mundo onde eram possíveis e eficazes as orações que por ele fazíamos, sobretudo nesta quadra. Rezar pelo mundo. Na mais bela pequenez da Vila e do coração da infância.
E na Matriz, nasceu-me o primeiro Deus. A Matriz é um lugar verdadeiramente divino. A Matriz é como se fosse a minha casa. Imagino-me exilado e a regressar um dia com o coração nas mãos, tendo a absoluta certeza de que seria a Matriz o primeiro sítio onde parava para estar só e agradecer o regresso. Não é uma questão de filiação religiosa. É uma questão de verdade. De estagnação boa do tempo. Na Igreja Matriz nasceu-me o primeiro Deus e nasceu-me um sítio onde percebi que poderiam existir sítios acima dos Homens.
A natureza também está acima dos Homens. Vivemos cercados de montes e sobre esses montes começámos desde cedo a construir a ideia de desafio, de distância, de horizonte. Os montes, para quem vive no vale, têm esse sentido. Os montes de onde trazíamos as pinhas para a lareira, os montes onde escondíamos os animais que lá não existiam, mas que existiam apenas porque o nosso medo ou a nossa fantasia assim o ditavam. E pronto, a vida é mesmo isso, há uma aparência de cientificidade em tudo, mas na realidade o mundo que nos comanda é o que não existe, é o que se deseja e o que se teme. O que existe é apenas instrumental. E mesmo o que é tangível e comprovável pelas leis da Física, nasce para fazer nascer uma série de outras coisas que agigantam o seu lado gerador de sentidos e infinitas leituras, sendo contudo a mesma e única coisa.
A nossa rua de sempre arrefeceu e está tão bonita. Tem muitas idades esta rua. Em cada pedra da calçada reconheço o meu corpo, as fugas, as chegadas, os medos, os arranhões de quando corria com as outras crianças que já cá moraram e que já cá não estão na sua maioria. Fui ficando ao longo dos anos e vendo crescer a cada dia um pedaço diferente desse espaço como se fossem flores, flores renovadas de uma jarra que se tem no mais nobre dos aposentos da casa ou no mais íntimo. A nossa rua, amo-a tanto. A maior violência que o destino me poderá trazer será o de não morrer aqui, o de partir com a certeza de não regressar. Não sei como me poderei despedir da rua, ou de me despedir da ideia de não ver nada de novo a acontecer sobre ela, ou ainda pior: saber que vai acontecer muita coisa e eu não estar.
Um dia recebi uma bicicleta pelo Natal e decidi que partiria todos os dias. A minha bicicleta era um invento de liberdade. E, nesse ano, o Natal inventou-me a liberdade. Mas uma bicicleta é também uma parte do corpo e uma parte do sonho. A bicicleta de todas as partidas, do vento a dar-me na face quando descia para a aldeia onde o avô tinha a fábrica, a muita velocidade, a uma velocidade em segredo. A bicicleta a fazer com que tudo crescesse em mim. Tudo entre o medo e a astúcia, entre o deslumbramento e a angústia, entre o ficar e o partir.
A vida é um ritmar de partidas e chegadas. Partir não fisicamente, mas partir pelo pensamento, com quase tudo a ser possível, com quase tudo a ser uma funda inquietação do mundo. Partir pelos filmes, pelos primeiros que assistia nas matinés do velho cinema  e que rendiam todo o mês, em busca de extraordinárias personagens, de lugares longínquos, em busca de ter o longe perto. Um dos maiores atributos da arte, é o de fazer rebentar distâncias, tornando o longe mais perto mas também tornando o perto muito longe, o que é fascinante.
Aprendi, então, a medir distâncias, o espaço também não é o que aparenta. Ainda me lembro dos teus olhos e dos meus em frente ao Flore, em Paris, sem que lá estivéssemos plenamente. Estávamos era na nossa juventude, no que sabíamos dos artistas que para lá fugiam e dessa parte de nós que também queria ter fugido. Estávamos a falar ambos com os adolescentes que fomos e que nunca estiveram em Paris. Estávamos ali e tudo não era mais do que o que queríamos daquele lugar. Uma tarde, em Zagreb, andei pelas ruas ininterruptamente a rever as minhas idades e dei comigo a medir distâncias entre aqueles sítios e a nossa terra. Na realidade, sai-se muito pouco. É tão raro sair da nossa rua. E é tão bom que assim seja. Arrefeceu na nossa rua. É Natal. Faz sentido que assim seja.
Anoiteceu já. Daqui a nada chegam todos para a ceia. O gato anda inquieto, roça-se mais nas minhas pernas, do que no resto do ano. Parece pressentir que nesta altura a ternura é mais dividida. Os gatos detestam dividir emoções. Eu também sou em parte assim, daí me entender tão bem com os gatos. Mas, hoje é uma excepção, sempre foi, sempre há-de ser.  O gato está de patas para o ar. E isso é o pior que pode acontecer a um bicho daquela idade e com personalidade felina. Um gato de patas para o ar a fazer habilidades é o mesmo que um quarentão a dançar música moderna em frente a uma rapariga de vinte. É o extremo da carência e o limite da dignidade. Vou ter que lhe assegurar que ninguém o substituirá na cadeia emocional aqui de casa. Afinal, a quadra ensina-nos a não esquecer e o velho Félix nunca me faltou uma só vez à sobriedade que a casa tem de ter o resto do ano.
A mesa está posta desde as seis da tarde. Foi sempre assim. Já no tempo do avô assim era. Começamos cedo a celebrar, a ter cuidados, a trabalhar para que,de cada vez, se acrescente ao inesquecível. A mesa ainda está vazia, embora esteja  cheia. Está cheia de memórias. Já passei pelas cadeiras quase todas. Desde pequeno que a mobília da sala é a mesma. À medida que as fases da vida foram passando, fui mudando de lugar. O ciclo termina no lugar que hoje ocupo. Estou à cabeceira, na cadeira que era do avô e depois do meu pai. Este lugar na noite de Natal é um trono. Tenho-os em cada gesto. Tenho-os como se nunca pudesse desmerecer o lugar. A vida é assim mesmo, dizem os Homens, demonstram os deuses.
Não se pode saber, mas desta janela que dá para a rua, só se vê a antiga Vila. Nada mais do que isso. Estamos todos, estamos sempre. E ainda se nasce muito por cá. O Natal tem na festa inúmeros silêncios. Magnânimos todos eles. Silêncios de viagens ininterruptas, silêncios de aconchegos infinitos. Silêncios de onde despontam as vozes mais antigas, mas também as vozes que hão-de vir.
Esta noite, é uma síntese. Uma magnifica síntese onde nos atravessamos pelas margens do mais belo, do mais justo e do mais terno.
Estão quase todos a chegar. Arrefeceu muito lá fora. A Vila é o lugar mais bonito do mundo. O gato Félix recuperou a dignidade e enrolou-se a dormitar junto à minha cadeira. Vou abrir o vinho e esperar que ninguém falte, que ninguém nos falte esta noite ao coração. Feliz Natal.

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