Foto PMM - Fafe
Antes da revolução de Abril, a BBC de Londres transmitia em língua portuguesa todos os dias, e era a forma que tínhamos para saber o que se passava no mundo sem o crivo da ditadura. O avô ouvia religiosamente esse serviço noticioso e, a maior parte das vezes, eu também ouvia. Ainda conservo no meu escritório esse rádio. Contudo, eu era pequeno e não me lembro de muito, a não ser do aborrecimento que constituía ouvir as notícias em tom enfadonhamente institucional da BBC e o de não escutar comentários sobre o que se noticiava por parte do avô. Passados estes anos, pergunto-me sobre o que estaria por detrás daquele silêncio. Pergunto-me pelo preço que teria aquele silêncio. A inteligência do silencio, o medo do silêncio, a guerra e a paz que aquele silêncio guardava. Lembro-me disto porque o meu pai não ouvia um noticiário sem que comentasse no final e sem que a seguir não ameaçasse de que tal seria motivo de conversa no Club Fafense, um sítio com uma mística muito parecida à do café do Rick, em Casabalanca, onde se reuniam resistentes e situacionistas, equilibrando-se numa estranha mas eficiente convivialidade. No Club Fafense não entravam mulheres. Quando era preciso chamar o meu pai, era eu quem lá ia. E do alto da minha educação dos quatro anos, entrava como deve entrar um cavalheiro, saudava os presentes com um habitual e muito apreciado: boa noite meus senhores. Procurava o meu pai e perguntava-lhe se queria vir passear com a D. Ângela Medon e o Dr João na Arcada, nas noites de verão da Vila. Nesse tempo, havia um cheiro a cravos amarelos e a umas flores lilases que todos os anos a Câmara mandava colocar nos canteiros. Às vezes o meu pai demorava-se um pouco mais no clube a jogar bilhar. O Teixeira e Castro, jornalista e escritor, dizia que o meu pai tinha sido, senão o melhor, um dos melhores jogadores de bilhar que Fafe conhecera. Lembro-me de um certo desprezo que ele tinha pelo snooker, achava que o bilhar e o jogo de tabelas é que demonstravam perícia e estratégia, que o snooker não passava de entretimento para quem se limitava a meter bolas sem grande pensamento. O bilhar do Club era um bilhar normal, mas durante muito tempo foi um poço de enigmas para mim, pois comecei a passar por lá, sem que tivesse idade e altura suficientes para conseguir ver o jogo. Punha-me em bicos de pés para conseguir espreitar as jogadas. Depois da revolução meu pai deixou de ir e eu também nunca mais lá tornei.
O Club reabriu este ano com novas pessoas e uma filosofia nova. Chamou a si muitas organizações locais para dar vida ao espaço que foi restaurado. Entendo que é uma boa opção, sem que isso apague a memória dessa tal mística de um clube de homens que se equilibravam, pesem as diferenças e os níveis de combatividade a que cada um se votava.
Volto à memória da BBC de Londres, à memória de a ouvir na casa do Largo, à expressão serena do avô, a essa riqueza de o ter assim, de ainda o amar assim, de ainda me fazer falta dessa maneira, de me doer a Vila que já não existe, o Largo,e as pessoas que lá moravam e que já partiram quase todas. Sei que é a lei do tempo, mas também é dessa mesma lei que se sinta esta saudade e que, face a ela, se sorria em vez de entristecer, porque só se morre de facto quando se esquece, o que não será o caso.
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