Foto PMM - Fafe
Os livros são um país. Guardaremos aí a estranheza. Mudar-nos-emos para mudar de rota. Há uma personagem que não conhecemos e chega sempre o dia em que havemos de a amar e passar com ela uma parte da vida. O mesmo com os lugares, oceanos e frios e tempestades que só experimentamos dessa forma. Os lugares para onde conseguimos mandar o coração e deixá-lo nesse exílio. Feliz exílio o dos livros, ainda que no desconforto das inquietações, ainda que na penumbra que não é da literatura mas a nossa própria penumbra.
Uma vez vi-te chorar com um livro. Nunca mais te esqueci. Começaste a escrever nesse dia e a criar choros nos olhos mais fascinantes dos outros. Depois leste-lhes as histórias e continuaste. E de repente não sabias quem era quem. Quem eras depois dos livros. Uma vez vi-te chorar com os livros e nunca mais consegui deixar de escrever. Éramos novos. Tínhamos um encontro marcado. Éramos o mesmo. Mas sabia que eu era eu e tu eras tu. Mas só nós alcançávamos essa diferença. O mundo individualizava-nos em documentação avulsa. Tínhamos o mesmo pai e a mesma mãe. Mas na realidade também eles eram diferentes para cada um de nós e para o antes e o depois do nosso encontro. Às vezes fazes-me falta. Era impossível que um de nós se perdesse. Era impossível desmoronar o que afinal fizemos juntos, desde o dia em que te vi chorar com um livro. Hoje escrevemos ambos e vivemos ambos. Não é fácil, mas é a única forma que conhecemos para ser e não ser do mundo.
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