Sunday, December 25, 2011

Escrever a viagem

 Foto PMM - Coimbra
E, de súbito, falta-me muito um deus que ajude a perceber como se pode durar mais sobre um tempo que só na aparência é idêntico para todos. O tempo é o que temos de mais relativo. O tempo é uma invenção da felicidade e da tristeza. Move-se e consome-se entre estes dois pólos, mais depressa ou mais devagar consoante estes dois estados. A duração das vidas é esta viagem, magnífica, intensa, cheia de dimensões onde nos demoramos. Dimensões que säo portos de muitos abrigos, abrigos de muitas tempestades e bonanças.
Um dia, estava sentado num desses portos de interiores viagens e recuei uns séculos até à velha Flandres e era então um mercador que procurava duas coisas: alguém a quem pudesse vender a minha mercadoria e, ao mesmo tempo, conseguir saber o destino dessas coisas que vendia na vida e no sentimento daqueles que as compravam. Era um mercador em busca de conhecer um bocado mais da felicidade que envolve o mundo. Uma tarde, já quase noite, em Antuérpia, uma rapariga contou-me que o seu noivo apaixonou-se por ela quando a viu pentear-se em frente ao espelho que eu lhe vendera e que, desde essa altura, aquele espelho tornou-se um confidente que não dispensa e a quem quase tudo pergunta.
Desde essa tarde que não mais esqueci o espelho que vendi àquela mulher e nunca mais deixei de perguntar a mim mesmo que histórias continuaria aquele objecto a contar, que amores e desamores, que angustias e paixões?  O que teria aquele espelho trazido para o pulsar do mundo?
Saí do Porto de Antuérpia e voltei a este tempo e a este modo, sem grandes diferenças encontrar entre o que escrevo e o mercador que fui naquele porto na Flandres, no centro da memória e do desejo. Escrevo porque não consigo deixar de acrescentar objectos ao coração das pessoas de todos os tempos, criar esse objecto-palavra e soltá-lo para sempre sobre outras vidas que o hão-de guardar para si, mudando cada um e com isso mudando o pulsar do mundo. Não escrevo por muito mais.

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