Monday, December 26, 2011

Adeus

Foto PMM - Gaia
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Olha pela janela e conta os pássaros, as árvores da paisagem, as crianças, os velhos e volta para ti como se te esperasse o paraíso no curso dessa viagem. Lembra-te de mim e do que te não disse. Faz disso a nossa melhor história.
Um dia, apanhámos o comboio numa estação no Sul de Itália. Houve uma mulher muito bela que me pediu lume enquanto tu me pedias para te dizer se alguma vez te trocaria. Lembro-me de te ter respondido que nunca troquei nada nem ninguém. Que apenas vou morrendo frequentemente e que, como tal, há pessoas e lugares que me perdem. Lembro-me que me abraçaste cheia de medo, não que eu morresse, mas que me pudesses perder. Então, antes de entrarmos para o comboio, perguntei-te se querias fazer a viagem comigo, mesmo correndo o risco de eu não ser eterno. Disseste-me, enquanto se te embaciavam os olhos: 
- Todos havemos de morrer um dia, pelo menos uma vez, e nem por isso deixamos de viver.
O comboio partiu ao final da tarde. Uma tarde quente de Setembro. Estávamos no Sul de Itália e os teus olhos morriam nos meus de tão belos, de tão irrepetíveis. Percebiam que o amor ē uma ciência, é uma imensa sabedoria. Saber que se nasce para morrer um dia, a cada dia, e que mesmo assim, e que só assim, é possível construir a beleza e seguir. Nem o amor nem a beleza se conquistam à chegada, só quando partem se elevam. E, quando  partem, ficam e contam o que será.
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Há um planeta inteiro para nos morrer no coração e hoje ē o dia. Apanha esse comboio e deixa-me onde ainda não chegou o coração. Nem o teu, nem o meu. É aí que quero morrer. Por ser aí essa pátria de esperança, muito virgem, muito virgem de despedidas de todos os outros lugares por onde passámos e não paramos, mas que nos faltam e, por faltarem, significam.
Apanha comigo esse comboio e deixa-me nessa viagem. Se eu não chegar nunca, não me procures, eu sou a tua viagem. Se me não vires esta tarde não faz mal, estou no sul de Itália numa velha estação a dizer-te com os olhos embaciados que o amor não se explica e que por isso te posso morrer. Estou nessa estação à espera que partas e que entendas que o amor também é uma despedida, uma longa e bela despedida.
Apanha comigo esse comboio e olha pela janela. Podes acenar assim que o comboio começar o seu curso e vê, vê com os olhos molhados como ficamos nessa estação, julgando-nos eternos. Vê como partimos, como se está sempre a partir. Podes acenar. Podes dizer uma ou duas palavras sobre essa parte de nós que ficou e que morrerá por ali.
Chega-te a mim. Está a arrefecer nesta carruagem. E o futuro, o futuro é sempre um lugar frio. Assim que chegarmos, estaremos a morrer novamente, mas é isso o amor, a sabedoria do amor. Estaremos a morrer e tu a perguntares se eu ficarei e eu a dizer que se fica muito quando se morre.
Assim que chegarmos, vou dizer que nunca te deixarei. Que morro muitas vezes e que, por  isso, há pessoas e lugares que me perdem.  Apanha comigo esse comboio. Não deixes de dizer adeus, pois só dizemos adeus ao que queremos levar para sempre.

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