Wednesday, November 24, 2010

O que fica.

Zagreb- 2010
Quando tínhamos sonhos em frente de toda a gente, saíamos demoradamente para os lugares e falávamos infinitamente do que não tínhamos e do que estaria para chegar.
Quando nos mudámos para o peito mais resguardado da nossa vontade, sentimos falta de nós mesmos nas praças, nos cafés, nos lugares onde se apontavam a infinidade de nomes que dávamos ao mundo.

- Às vezes ainda chamo por ti, distraidamente. E só no sossego que a saudade guarda és capaz de estender o olhar e levar-me agora pelas ruas que não existem e pelos cafés onde nunca nos viram. Nas praças, nas praças incendiaremos o coração para que nunca sucumba a tua voz tão nova a mudar quase tudo. Só depois seguiremos na trajectória do vento para que, se tudo correr bem, nos confundamos com ele, desaparecendo suavemente pela face e pelos cabelos dos que ficam e hão-de recolher no seu olhar o que nunca dissemos e o que nunca fizemos. A única razão de sorrirmos uma última vez será essa: a constatação de que fomos seguindo no nosso desaparecimento e nunca o espanto faltará ao mundo.

Wednesday, November 17, 2010

Dias Breves 56

PMM - Brugges

As estações passam por nós.
Coleccionamo-las e sempre partimos.
E sempre morremos em cada uma delas,
porque morrer é o que de mais belo
possui uma existência que não se resigna
a repetir-se até que acabe.

Dias breves 55

PMM - Zagreb
Talvez nos baste a música da chuva
evocando os invernos idos.
Talvez nos baste o que aprendemos na infância
sem que nunca o entendêssemos.
Talvez nos baste a certeza
de que nunca nos faltará a desafiante
aparição do desconhecimento.

Recuperar o coração

PMM - Bruxelas

Recupero o coração das coisas. No anoitecer de Bruxelas, de regresso do trabalho, evoco um tempo a que temos de voltar. O tempo de haver tempo para o significado. A atenção dada pelas pessoas que se conheciam e se preocupavam com a identidade do outro. A memória das mercearias em que os comerciantes sabiam dos gostos dos seus clientes, a memória dos livreiros que conheciam e sabiam enquadrar os livros na vida de cada um, a sazonalidade dos produtos que vinham de pequenos produtores de outras terras fazer as delícias da nossa.

Ainda cultivo uma certa forma de viver assim. Vou a Vila Real comprar ao oleiro do costume os nossos tachos em barro negro, conversamos sobre a sua durabilidade, sobre o frio dos últimos dias, sobre estes tempos. Ou comprar vinho nas adegas. Doces nos doceiros de Fafe. Queijo da serra, azeite, enfim comprar nos sítios onde as pessoas se implicam no fabrico do produto e no afecto que lhes dedicam por lhes terem entregado a vida.

Mas não é fácil fazê-lo. É caro. É preciso tempo. Mas já alturas houve em que faziam isto por nós e traziam os produtos com as suas histórias de afectos que eram o melhor selo de qualidade que se apresentava. Demorávamo-nos a saber a história de como o nosso merceeiro encontrou o homem das alheiras no meio de uma aldeia transmontana, ou de um fornecedor de Bacalhau da Noruega que só ele o representava na nossa terra, ou o queijo que vinha das beiras, mas de uma família que sempre se dedicou ao seu fabrico e à pastorícia. Demorávamo-nos nos afectos dos produtos para consumir mais o afecto e a narrativa, do que o produto em si.

Quantas histórias eram melhores do que o comprávamos. Mas também, quem precisa mais: a boca ou coração? Sei que esta costela conservadora me desloca do mundo. Mas não a deixo por nada. Um dia destes, como toda a gente, morrerei e o desafio é o de nunca desperdiçar o coração. Tudo mais é sobrevivência e biologia básica, que só importa para que o corpo se aguente em pé e espere uma outra história, uma outra lágrima, um outro sorriso, um outro amar o próximo e a vida como a nós mesmos. Tudo mais morrerá connosco ou antes de nós. Só as histórias permanecerão.

Tuesday, November 16, 2010

Dias Breves 54

PMM - Bruxelas

Uma vez trouxe-te os livros. O chão obsessivo da tua única pátria.
Colocam-se aí um a um sobre o desespero e sobre a alegria.
Colocam-se-te no peito e és então uma península
onde passam para terra o que vais guardando sobre a memória
dos oceanos. Não porque alguma vez gostasses do mar
mas porque sempre soubeste roubar do horizonte a sua distância
e a sua dificuldade.

Thursday, November 11, 2010

Dias Breves 53

Zagreb, 11-11-10
Ainda o Outono.
A história da folhagem no chão da cidade.
As árvores com a sua narrativa
na narrativa dos Homens.

Zagreb a entardecer e, nessa luz,
o relembrar que não há forma mais bela
de nos despedirmos,
que não seja a de nunca desperdiçarmos
um único adeus.

Dias Breves 52

Zagreb, 11-11-10
Podia haver um nome
para chamar o nosso desconhecimento do mundo.
Mas não há.
Se houvesse, seria um nome muito parecido
com o Amor,
por ser admiravelmente infinito,
por ser inacreditavelmente belo.

Dias Breves 51

Zagreb-11-11-10
Ainda me lembro desse frio
que narrava lentamente o sofrimento
e dele a mais explícita miragem da felicidade.

Tuesday, November 09, 2010

Uma Catedral com intimidade

Zagreb, 09-11-10
A Catedral de Zagreb tem intimidade. Como a Sé de Braga também a tem. As Igrejas com intimidade são locais que contam para o exílio do coração. As emoções são como os vinhos: precisam de ser amadurecidas. E estes pedaços de mundo são locais muito propícios para isso, por serem íntimos e por serem nossos, embora deslocando-nos do tempo.
Um altar lateral com a imagem da Virgem segurando o Menino, como em tantas outras. Uma paragem sempre obrigatória para voltar a sentir que também o meu pai voltou ao colo de sua mãe. A vida e a morte cruzam-se assim na beleza do mundo. A vida e a morte a lembrar-nos que existem e que somos sempre temporários em ambos os sítios. Também se é temporário na morte. Ou porque se acredita que existe mais vida para além dela, ou porque nunca morremos para sempre no espírto dos outros. E a dúvida é saber durante quanto tempo se morre na alma alheia. Uma pergunta tão díficl de responder como a de saber quanto tempo se vive na alma alheia.A

Sunday, November 07, 2010

Machico


à Landa
Começar o dia em Machico. Já lá não ía há seis anos. Olhar o mar e a serra. Sentir a ilha. Aprender a navegar com os olhos para o mais longínquo porto que ainda trago no peito. Sentir essa viagem a começar dali e a não ter tempo, nem lugar. Apenas a noção de haver um cais, um porto, onde envelheceremos juntos a sorrir sobre as coisas que nunca nos hão-de passar, apesar de muito velhas.
O amor é um barco. E o oceano e a terra são o que não acabámos de dizer. E a vida, a vida não é muito mais do que aquilo que vamos dizendo sobre esse porto enquando entardece.

Thursday, November 04, 2010

Funchal

Não estávamos em Junho. A Avenida do Mar não cheirava aos jacarandás em flor. A brisa não trazia a memória recente do sol. Nem o Golden Gate nos recolhia as tardes.
Estava na Ilha a fitar o nosso corpo e a desconstruir nas horas de Novembro as fugas de um antigo verão, roubado para sempre ao mais íntimo e ao mais belo exílio que guarda o que nunca saberá o alheio coração.