Wednesday, October 27, 2010

Orar na casa de João Paulo II

Este fim de dia, estive a orar na Basílica de S. Pedro, em Roma. Mas o mais íntimo da visita ao Vaticano foi a chegada. O olhar preso à janela onde João Paulo II apareceu a última vez, preso também à varanda onde o vimos no dia da sua nomeação.
Fui lá como se o fosse visitar, a ele, não a São Pedro, nem sequer a Deus. Fui lá com um sentido de reencontro. Um reencontro com uma grandeza intraduzível: estava no sítio onde aquele homem foi dia após dia mudando o mundo, à medida das suas forças.
Tenho por João Paulo II um respeito civilizacional e um carinho muito particular. O resistente que foi, o destemido que também foi, o homem que acrescentou aos dias e que ainda acrescenta com o seu exemplo. Não se trata de idolatria. Detesto idolatrias. Trata-se de respeito. E o respeito é dos sentimentos mais belos que nos pode tocar o peito. Aquela varanda foi uma varanda sobre a esperança e aquela janela foi uma janela aberta à não resignação. Duas orações muito belas sobre a História do mundo. Graças a Deus que vivi para o testemunhar. Saudades do Papa que veio do frio aquecer o coração das gentes. Saudades do tempo em que era tão fácil vê-lo pelo mundo, agora que apenas o sentimos pelo mundo.

Wednesday, October 20, 2010

Os sinais interiores de pobreza

Pintura de Fernando Botero
Em Bütgenbach, numa sessão de trabalho acerca do que deverá ser o novo quadro das políticas europeias direccionadas à Juventude. À mesa de jantar, a memória de duas vozes que trazem o inconformismo e a transformação do mundo de uma forma muito bela: Paco Ibañez e Leo Ferré. E daí a certeza, o exemplo que deles chega. Para mudar o mundo e dominar as sucessivas crises não bastam paleativos materiais. É necessário mudar as consciências.
Face aos evidentes sinais exteriores de pobreza de muitos e aos evidentes sinais exteriores de riqueza de poucos, a resposta para equilibrar o desenvolvimento social terá que passar por um sério ataque aos sinais interiores de pobreza. Só por essa via se poderá lançar uma clara transformação que tornará distante o próximo ciclo de crises que nunca são unicamente económicas.
Combater a pobreza humana no seu lado interior deverá ser tão, ou mais, mobilizadora do que contrariar somente a resposta às necessidades materiais do momento, que não deixando de ser importantes, vão tendo resposta por via Estatal. O que não custa dinheiro, mas militância, é a mudança das mentalidades. Um certo liberalismo amado por uns e um certo capitalismo selvagem que pulula estão sempre interessados na resolução misericordiosa das crises, mas não na mudança dos Homens. Se os mudarmos mudará muita coisa, mas também o status quo. E isso,  é algo que incomoda muitos e confronta outros tantos.
Nas fileiras dessa revolução silenciosa, mas eficaz, vão estando os que têm boas histórias para contar, através de actos que efectivamente mudaram vidas e procedimentos que tornaram mais justas as nossas comunidades. O caminho, como a História o tem demonstrado, é por aí. Por isso, escolas, cultura, participação cívica são elementos fundamentais para seguir em frente. O capitalismo, que é o grande responsável pela actual crise, não gosta, mas já não tem condições para publicamente discordar desta solução, o que por si só já é uma vitória. Ua vitória de alguns para todos. Pois um mundo justo e de efctiva prioridade do interesse colectivo face ao individual é certamente um mundo onde as gerações vindouras serão e farão melhor.

Sunday, October 17, 2010

Alfredo Margarido

Aguarela da autoria do Prof. Alfredo Margarido
Soube, pelo Expresso, da morte do Professor Alfredo Margarido, um nome maior das nossas letras, do ensaísmo literário, especialmente das letras africanas, um tradutor dos mais consagrados escritores à escala mundial, Professor de Socilogia em Portugal, na Unversidade Autónoma de Lisba e em Paris na Sorbonne.

Alfredo Margarido foi meu Professor de Sociologia, na cadeira de Classes Sociais. E ensinou-me muito daquilo que é o sentido mais fundo desta Ciência. Ensinou-me o sentido. E aprender o sentido das coisas significa estar apto para aprender os aspectos técnicos e as conquistas epsitemológicas, significa estar-se apto para tomar o pulso aos batimentos do que se estuda. Conquistado isso, todo o resto é só esforço, é só trabalho.

O Homem que convencia o mítico Alain Touraine a acompanhá-lo nas feiras de Paris para sentir o povo na sua forma mais real e no seu pulsar mais fundo. O comunista que lamentava as mortes da Primavera de Praga. O Humanista que nos mostrava sem reserva a necessidade da não propaganda no discurso científico para explicar e contribuir para o verdadeiro desenvolvimento das sociedades.

Os meus colegas de curso diziam-me que eu era dos poucos alunos que ele respeitava. Não seria o caso. Mas o que ele provavelmente sentia é que das nossas conversas no final das tardes de Terça-feira, quando vinha de Paris a Lisboa para nos ensinar, as minhas questões tinham na sua origem a vontade de conhecer e nos comentários que fazia reconhcia-me a seriedade intelectual de tentar contextualizar o que dizia com o pouco que sabia. Era só isso. Mas sabia-me bem essa relação e eu percebia o privilégio que era tê-lo disponível para me ensinar para lá das horas de aula.

O Professor Alfredo Margarido era um monumento para nós. Faláva-nos do conhecimento com o sofrimento e a alegria que só quem o experimenta entende, seja a que nível for. O conhecimento dói. Como a verdade. Como a rectidão.

Esta notícia da sua morte entristeceu-me mais do que poderia contar. A Sociologia que aprendi com ele estará diferente. Nunca mais será a mesma. Ele era um duro, mas um duro que nos apontava o mais acolhedor dos destinos: a sempre temporária verdade. A verdade conquistada com a seriedade e a independência que se nos exige. Ele não era muito afável, mas fazia-nos chegar à afabilidade que tem o degrau a seguir do conhecimento.

Uma vez disse-me para nunca desistir. E que acreditava que era possível e que eu seria capaz. Daí os colegas dizerem que ele me respeitava.

 Apetece-me dizer-lhe, hoje, como dizem os velhos: cá vamos teimando Professor, cá vamos teimando. Graças também a si que passou a ocupar um dos lados do meu espelho matinal, aquele onde me confronto diariamente e onde muito poucos estão do lado de lá a questionar, a confrontar, mas também a dar força. Cá vamos teimando, Professor!

Friday, October 15, 2010

Dias Breves 50

Uma esplanada para revisitar a solidão.
Uma forma de espreitar o paraíso através dela.
Só quem conhece a solidão tem acesso ao lado maior da felicidade.
Todo o resto é a arquitectura do Tempo.
E a arquitectura do Tempo serve-nos a mais perfeita medida
para a comparação das idades: o último segredo.

Dias Breves 49

Nas margens do Garonne guardo as tardes, as vinhas, o inverno que há-de chegar e a sua saudade.
Entretanto vive-se. Vivemos como os barcos, de passagem, levando a correnteza na mais antiga linguagem da esperança.
E havemos de morrer um dia para nós mesmos, sem saber quando estaremos mortos para os demais, sendo esse o mais justo mistério, e o mais belo, também.

Wednesday, October 13, 2010

Os mineiros do coração

Esta tarde, os trabalhadores das minas de São José, no Chile regressaram à superfície, depois de vários meses soterrados. Dizem que são homens novos. Volto a Platão e a Saramago. Volto ao grande enigma que move o espírito humano. As viagens que aqueles homens fizeram às mais estranhas e desconhecidas cavernas do seu próprio coração foram viagens de uma vida. Mais intensas que todas as travessias que imprimiram no espaço, desde que nasceram.
Hoje, o coração do mundo aprende com o coração destes homens. Aí está uma lição de paz e de grandeza, certamente. O que nos falta, tantas vezes, é essa viagem, sem estarmos soterrados, sem distâncias, sem nada que nos tire do mundo. O que nos falta é partirmos para as cavernas do nosso próprio coração. Não muito mais, nada muito mais heróico que isso.

Wednesday, October 06, 2010

Dias Breves 48


Chove no século das músicas palacianas.
Uma cantora invade-me o silêncio
e rouba-me as obscuras paredes
onde esperava as estações
para nelas guardar o tanto
que o amor tinha ensinado.

Friday, October 01, 2010

Dias Breves 47

Pintura de Le Pho
Amanhece o coração dos nossos dias até ao fim.
Só assim poderemos partir como se o não soubessemos,
como se nunca o tivéssemos sabido, apesar de termos vivido.